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A FALÊNCIA DA OBJETIVIDADE (21/04/2020)

Dr M. MATTEDI

Universidade Regional de Blumenau

mam@furb.br


Desde o surgimento da Covid-19 vimos a tendência de transformar o Distanciamento Social num campo de batalha de conflitos políticos e culturais preexistentes. Por isto, na maior parte das vezes é muito difícil saber o que exatamente está acontecendo e, sobretudo, o que deve ser feito. Questões altamente técnicas como as métricas de contágio (R 0/1) convertem-se numa questão de preferências ideológicas. Por exemplo, quanto tempo deve durar o Distanciamento Social? E, mais perturbador ainda, devemos acreditar ou duvidar da resposta? O novo alvo agora do processo de polarização constitui as pesquisas sobre o Distanciamento Social.


A diluição do conhecimento objetivo na internet constitui a principal ameaça na COVID-19. A objetividade constitui a qualidade de um julgamento que descreve os acontecimentos e as coisas (fatos) com precisão. Porém, a precisão da descrição dos acontecimentos depende dois fatores: a) Ético: aponta para neutralidade face o acontecimento (validade do julgamento); b) Epistêmico: aponta para a adequação da representação do acontecimento (veracidade da observação). Portanto, a objetividade constitui uma operação ao mesmo tempo normativa e cognitiva: evitar que nossas preferências (valores) afetem nossas constatações (observações).

Com a emergência das mídias sociais o problema da objetividade se agravou ainda mais. Isto acontece porque devido aos algoritmos as mídias sociais acabam potencializando os feitos da Heurística de Disponibilidade. A Heurística de Disponibilidade compreende a tendência cognitiva de considerar, preferencialmente, os exemplos imediatos ao avaliar um tópico, conceito, método ou decisão específica. Assim, como para bilhões de pessoas para quem as mídias sociais constituem a principal fonte de informação a tendência a sobrevalorizar as informações disponíveis é grande. Assim, as mídias sociais reforçam algoritmicamente nossas próprias convicções.


A consideração dos vieses cognitivos é importante por ajudar a entender os problemas de objetividade em geral e os relacionados a COVID-19 em particular. Frequentemente, constituem o efeito combinado de quatro processos cognitivos principais: muita informação + pouco sentido + necessidade de agir rápido + memória falha = viés cognitivo. Temos muita dificuldade de lidar com informações complexas. Por isto, para reduzir a complexidade de informações utilizamos módulos mentais que simplificam nossas escolhas. Ou seja, nascemos prontos para sermos enganados. Afinal, cognitivamente, é sempre mais fácil acreditar que duvidar!


Neste sentido, é emblemático o caso do Viés de Confirmação. O Viés de Confirmação constitui um processo cognitivo que reforça nossas próprias crenças. Indica a propensão seletiva das pessoas na coleta e na interpretação das informações: quanto maior a carga emocional e quanto mais arraigada a crença maior a influência do Viés de Confirmação. Isto significa que quando submetida a situações de incerteza a influência seletiva do Viés de Confirmação é ainda mais pronunciada. Portanto, para sermos objetivos precisamos examinar, ao mesmo tempo, tanto nossos processos cognitivos quanto o modo de operação das mídias sociais.


O problema de avaliar objetivamente o Distanciamento Social pelas mídias sociais é, portanto, que neste contexto os cenários mais extremos acabam sempre tendo o maior peso. É por isto que as duas narrativas mais extremas da COVID-19 é que prevalecem: a) Negacionismo: reconstrução os acontecimentos relativos a COVID-19 que minimiza os efeitos da crise; b) Alarmismo: reconstrução da COVID-19 que amplifica os efeitos da crise. Isto acontece porque uma das características das narrativas constitui a negação de que exista uma realidade independe das crenças: toda vez que a realidade resiste as narrativas, os fatos são adaptados as narrativas.


Assim, embora o vírus exista objetivamente (fato), o que importa mesmo são as interpretações (narrativa). Mesmo que a OMS e os especialistas se esforcem para entender e controlar a COVID-19 através do Distanciamento Social os fatos não contam. É que embora estejamos fisicamente protegidos do risco de contágio pelo Distanciamento Social, não estamos cognitivamente imunes ao contágio de notícias produzidas ininterruptamente pelas mídias sociais. Paradoxalmente, apesar de podemos nos proteger fisicamente do contágio da COVID-19, não conseguimos evitar o contágio cognitivo do ativismo ideológico interpretativo.


Isto acontece porque a objetividade envolve um combate, ao mesmo tempo, contra si mesmo e contra a customização da informação. Por um lado, uma luta contra nossa propensão cognitiva a acreditar no que reforça nossas crenças (Viés de Confirmação); e, por outro, as disposições das tecnológicas da economia da atenção (Filtragem Algorítmica). Afinal, quanto maior a quantidade de informação disponível, mais rapidamente a credibilidade se propaga. Neste sentido, a intersecção entre fatores cognitivos e fatores tecnológicos constitui um espelho cognitivo refletido que torna as informações falsas mais difíceis de detectar e, possivelmente, de erradicar.


A objetividade constitui uma propriedade da racionalidade. A racionalidade constitui uma relação de correspondência entre crença e evidência. Neste sentido, coloca, de um lado, a crença científica, e, de outro, a crença não-científica. Isto significa que na ciência que a crença deve ser alta somente quando as evidências também forem altas (forma do contágio do COVID-19); já, na crença não-científica, a crença pode ser alta e as evidências baixas (eficácia do hidroxocloroquina), ou as evidências altas e a crença baixa (Distanciamento Social). Daí a importância de usar a racionalidade para realmente entender o que acontece com a adoção do Distanciamento Social.

O problema é que não sabemos mais nem acreditar e nem duvidar. Para saber o que aceitar e o que rejeitar é preciso adotar um método de seleção das informações. Este método é o estudo dos acontecimentos em busca de fenômenos reproduzíveis e falsificáveis, conhecido como espírito crítico: a) comparar os índices; b) avaliar as provas; c) levantar as fontes de informação; d) evitar hipótese supérfluas; e) construir modelos; e) testá-los contra a realidade. Uma pessoa crítica possui um espírito aberto: não rejeita e não aceita nenhuma afirmação a priori. Afinal, aceitar ideias novas sem avaliar, ou rejeitar novas ideias sem avaliar não é racional.

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