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As duas ameaças

Atualizado: Abr 3

Dr M. MATTEDI

Universidade Regional de Blumenau

mam@furb.br



Na semana passada a OMS declarou que o Coronavírus (COVID-19) atingiu mais que 100 países e se converteu numa pandemia. As informações sobre o ritmo de contaminação são alarmantes. O epicentro de contaminação se deslocou territorialmente da Ásia para Europa, atingindo os Estados Unidos e chegando ao Brasil. A confirmação que o Brasil estava em estágio de transmissão comunitária desencadeou o pânico na população. Afinal, como em todas as situações de emergências, também a pandemia do COVID-19 afetará os mais vulneráveis. Por isto, a conta será paga, principalmente, pelos mais pobres e sem assistência de saúde.


Os impactos do COVID-19 no Brasil refletem as propriedades sociais e políticas que caracterizam a sociedade brasileira. Duas características principais marcam o desenvolvimento da sociedade brasileira: a) Desigualdade Estrutural: a concentração da renda; b) Patrimionialismo Estatal: apropriação coorporativa do Estado. Por isto, é razoável supor que epidemia tende a se espalhar mais facilmente entre as pessoas que vivem nas regiões pobres e que o Estado não terá capacidade de atender adequadamente a todos. Portanto, o impacto do COVID-19 no Brasil vai se diferenciar segundo o nível de renda e segundo o tipo de assistência a saúde.


Em todos os países a gestão da crise do COVID-19 depende da confiança da população nas recomendações dos governantes. Porém, no Brasil a população não pode confiar no Governo Bolsonaro. Inicialmente o Presidente Jair Bolsonaro minimiza o impacto do COVID-19, para logo em seguida maximizar as consequências. É que depois de classificar o a pandemia como uma fantasia, o reconheceu a gravidade da situação numa farsesca reunião de ministros. Por um lado, manda sinais ambivalentes para a população amplificando a sensação de insegurança; por outro, subordina a gestão da emergência a sua agenda política de comunicação.


Isto acontece porque o Presidente Jair Bolsonaro resolveu politizar a pandemia do COVID-19. Em seu Presidencialismo de Polarização as recomendações de confinamento social propostas pelos especialistas visariam prejudicar seu governo. Por isto, não parece interessado na coordenação de esforços de confrontação da crise. É que sua política de divisão não funciona em questões que necessitam de coordenação e integração de esforços. Porém, a demora e a falta de coordenação nas ações do Governo Federal vão aumentando as incertezas. Os efeitos emergentes da política de divisão podem ser ilustrados por dois exemplos emblemáticos.


O primeiro exemplo diz respeito a inconsequente participação do Presidente Jair Bolsonaro nas manifestações do dia 15 de março. Quando já havia evidências de contaminação comunitária a participação do presidente foi um mau exemplo para população. Afinal, enquanto os Bolsonaristas eram estimulados a participar das manifestações respaldados pela Posição Minimalista do presidente #TodosPorBolsonaro; a oposição assumiu a Posição Maximalista por meio da #FiqueEmCasa. O efeito desta atitude constitui a intensificação da divisão política. Ou seja, a gestão da pandemia do COVID-19 se transformou numa questão de apoio político.

O segundo se refere a disputa pelas sacadas. O Bolsonarismo encara a pandemia do COVID-19 como uma disputa ideológica. Neste sentido, o que está em jogo é, por um lado, a convergência do centro e da esquerda no “panelaço”; e, por outro, o “apluasaço” aos trabalhadores da saúde promovidas pelo o Bolsonarismo. Assim, Bater Panela as 20:30 significa ser contra o Governo Bolsonaro, porém Bater Palmas significa que as pessoas são favor. Neste sentido, não custa perguntar: quais são, afinal, as condições de trabalho destes trabalhadores do setor de saúde? Não importa, afinal para o Bolsonarismo tudo se reduz a confrontação ideológica!


A incapacidade política do presidente de liderar o combate ao COVID-19 se materializa institucionalmente num conflito federativo entre o governo federal e os estados. Neste sentido, a gestão da emergência vai se transformando numa queda de braço entre o presidente e os governadores. Por um lado, os governadores defendem medidas radicais de prevenção, o presidente defende a ideia que a atividade econômica não deve ser interrompida. Desta forma, a gestão da emergência é reduzida duas opções políticas: impeachment e golpe. O que está em jogo não é, claro, a segurança da população, mas a disputa eleitoral de 2022.


A polarização acontece porque o Presidente Jair Bolsonaro subordina as estratégias de gestão a sua agenda de comunicação política. Ocorre, contudo, que a tática da distração (ataques e agressões verbais a adversários ou opositores) nas mídias sociais tem efeito inverso em situações de emergência. É que a estratégia do presidente de se comunicar por meio das mídias sociais dificulta a gestão da emergência. Em situações emergência as Macro News dos canais convencionais são mais eficientes que as Micro News das mídias sociais. Não existe uma diretriz geral porque o presidente ainda não conseguiu fazer um pronunciamento de integração da nação.


O custo político da gestão do COVID-19 vai isolando o Presidente Jair Bolsonaro. A exposição das medidas adotadas explicita o despreparo técnico e o improviso administrativo de seu governo. A avaliação crítica dos equívocos do governo faz com que o capital político do Presidente Jair Bolsonaro encolha inclusive nas mídias sociais. Com isso o Bolsonarismo vai se reduzindo cada vez mais aos nichos autoritários de apoiadores. A estratégia da divisão e distração acaba criando inimigos imaginários e comprometendo a gestão da crise. A pandemia do COVID-19 vai mostrando que o Presidente Jair Bolsonaro não está a altura do cargo que ocupa!


No Brasil as pessoas não conseguem se sentir seguras pelo desalinhamento entre o que é dito e o que é feito. Até agora o Presidente Jair Bolsonaro vinha dizendo para os brasileiros que fechando os olhos o problema não existia... Porém, com o agravamento da situação na última semana, o Governo Bolsonaro acabou atropelado pelos fatos. Isto significa que ser governado pelo Bolsonarismo representa um risco adicional para a população. Mais precisamente, significa que no Brasil as pessoas são obrigadas a se protegerem do COVID-19 e do governo. Por isto, como sempre acontece no Brasil, a melhor alternativa é mesmo a autoproteção.

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