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DIÁRIOS DA PANDEMIA: INFODEMIA OU NOTA METODOLÓGICA

Dr. Alejandro Labale

Universidade Federal do Piauí

E-mail: aglabale@gmail.com


No dia 15 de fevereiro deste ano (2020) Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da OMS, apresentou um informe sobre o tratamento dado à epidemia do coronavírus (SARS-Cv2; Covid-19)[1] em alguns países. Utilizou o termo ‘infodemia’ para fazer referência ao vasto volume de informação sobre a Covid-19, a ambiguidade, a incerteza, o caráter enganoso e até falso com que são repassadas as informações em certas ocasiões. Tedros Ghebreyesus, apresentava e desenhava, publicamente, um novo acessório das políticas internacionais de análise, prevenção e combate de riscos à saúde da organização que dirige: a informação. O diretor geral da OMS levantou não só um alerta frente as ditas Fake News, mas também um apelo ao correto registro, divulgação e interpretação de dados epidemiológicos em tempos de rede mundial.


Tentamos aqui aproximar uma reflexão metodológica sobre a construção dos dados divulgados pela mídia a respeito da pandemia que subsidie uma leitura não especialista, porém crítica, desses dados. A rigor, toda informação utilizada como evidência neste artigo surge, por sua vez, da leitura dos meios de comunicação de distintos países e foi guiada pela operacionalização do conceito de ‘infodemia’.


Diferentes registros sobre a Covid-19 - apresentados em quadros de dupla entrada e mapas de jornais - distribuem cifras e porcentagens como se estivéssemos em um campeonato mundial de infectados. Os registros variam de intensidade de forma espetacular; alguns como o The New York Times, não divulgam cifras - pelo menos em títulos e chamadas – e, no outro extremo, encontramos títulos que fazem foco exclusivo nesses tipos de registro. Talvez porque não tenham muito o que dizer, além além de transcrever os boletins oficiais da autoridade sanitária.


Contudo, há uma distinção metodológica que deve ser feita para ler a informação – o que em geral se chama de ‘letra pequena’ de tabelas e quadros. Trata-se da correta distinção entre infectados assintomáticos (que não possuem sintomas, mas referem resultados positivos que só podem ser detectados por testes – aplicação comunitária) e aqueles infectados identificados clinicamente (apresentam algum sintoma e se aplicam testes para confirmação – aplicação individual). O sintoma infodêmico[2] dá a impressão de que esta distinção desaparece, porém à vista de todos, como a famosa Carta Roubada no conto de E. A. Poe, ficando em destaque, na comunicação massiva, apenas os casos confirmados e óbitos[3].


De fato, os países mais exitosos na contenção da pandemia foram aqueles que dispunham de suficiente quantidade de testes e os aplicaram massivamente, identificando assim infectados em geral, sintomáticos ou não. Esta distinção se torna óbvia aos se centrar a informação apenas sobre ‘casos’ (infectados, internados, doentes não ambulatórios) e ‘óbitos’, inclusive arriscando conclusões e prospecções com base apenas neles.


Assim sendo, os únicos registros indubitáveis pareceriam ser os de mortes, mas ainda estes não oferecem muita segurança de registro, pois países (ou administrações regionais) não contabilizam as causas mortis de forma igual. Assim, mortes domésticas por Covid-19 escapam dos registros, pois só são contabilizadas as mortes institucionais, admitem autoridades de New York - cidade e estado. Ou, ao se verem transbordados pelo número de casos, estados brasileiros foram autorizados a enterrar cadáveres sem o certificado de óbito correspondente. Também, algumas autoridades em diferentes latitudes, veem na quantidade de mortos um demérito de suas políticas e evitam a publicidade, classificando e ocultando propositalmente a informação – a hipótese de jornalistas ocidentais sobre a Coréia do Norte e outros raros países sem registros sobre o vírus.


Seja como for, é evidente que não existem – por impossibilidade técnica e/ou metodológica, principalmente – critérios unificados de contagem, seja entre países ou, ainda, entre administrações regionais do interior dos estados nacionais. A OMS recomenda alguns critérios metodológicos, mas não pode exigir seu uso. Logo, é temerário arriscar generalizações estatísticas e quando observamos um mapa resumo ‘do vírus’ num meio de comunicação deveríamos perguntar o que realmente expressam esses números. Ou, o que é o mesmo, qual seu grau de confiabilidade? E, para concluir, se esses dados são realmente comparáveis.


Como já dito, muitas das recomendações da OMS não são seguidas ou são cosmeticamente adulteradas por administradores de políticas públicas. O exemplo chileno parece quase absurdo. Contabiliza os mortos junto com as altas médicas (recuperados) utilizando o critério de que 'já não contagiam' (o que não só produz uma óbvia alteração estatística, parte de um pressuposto falso. Os cadáveres da COVID-19 são altamente contaminantes, está documentado).


Logo, o que fica à vista é a dependência dos resultados das políticas de saúde de contenção a respeito dos recursos disponíveis (testes), já que se evidencia uma alta dependência destes para explicar os casos de prevenção e contenção exitosos[4]. Aquelas administrações que não têm à disposição testes em abundância (e pela demanda mundial ficam a cada momento com menos, pois ainda tendo recursos para comprar, são difíceis de obter) dependem das ações cooperativas de contenção (quarentena) como única ferramenta para evitar o colapso de seus sistemas de saúde. A falta de informações corretas sobre o número dos infectados não sintomáticos – porém vetores da doença - deixa em evidência a vulnerabilidade, inclusive do melhor sistema de saúde até o surgimento de uma vacina eficaz.


É fato que os gestores de políticas públicas de saúde trabalham com uma grande zona cinzenta de incerteza: os infectados não sintomáticos. Esta dimensão ignorada (ou não corretamente divulgada), ao que parece, já levou muitas experiências nacionais ou regionais à catástrofe e se corresponde com a distinção metodológica menos divulgada pela mídia - dissimulada ou oculta na profusão de dados e comentários - aqui denominada de ‘infodemia’.


[1] “Alguns fatos, misturados ao medo, especulação e boato, amplificados e transmitidos rapidamente em todo o mundo pelas modernas tecnologias da informação, afetaram as economias, políticas e até a segurança nacionais e internacionais, de maneira totalmente desproporcional às realidades fundamentais. É um fenômeno que vimos com maior frequência nos últimos anos – não apenas em nossa reação à SARS, por exemplo, mas também em nossa resposta ao terrorismo e até a ocorrências relativamente menores, como avistamentos de tubarões” (ROTHOKOPF, 2003, online, tradução minha).

[2] Notícias falsas online, ausência de informações corretas e precisas sobre a pandemia. [3] A Carta Roubada é um clássico policial escrito por Edgar Allan Poe. Relata a história de um investigador (Dupin) que investiga quem roubou uma carta extremamente valiosa de um ministro. A história apresenta as intrigas existentes na política e na elite dominante e um investigador que raciocina numa lógica diferente da imposta pela sociedade vigente (PADRINI, 2015). [4] Vo' Euganeo é o nome de um povoado de 3,3 mil habitantes na região de Vêneto, Itália. O povoado é o único experimento de aplicação universal de testes para descobrir a origem de contágios comunitários, fato que evidenciou a importância dos portadores não sintomáticos como vetores da doença (DAY, 2020).

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