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PÓS-COVID-19 (13/03/2020)

Dr. M. MATTEDI

Universidade Regional de Blumenau

mam@furb.br


Fazer previsões é uma atividade social muito comum. Por isto, a medida que o pico da pandemia vai passando no Leste Asiático, Europa e América do Norte começam a surgir questões sobre a Pós-COVID-19. É que por onde quer a COVID-19 passe acaba deixando traços sanitários, sociais, políticos, econômicos e ambientais profundos. Isto significa, que de uma forma ou de outra, a COVID-19 mostra que as coisas podem ser diferentes do que elas são. Assim, as expectativas são saber se dentro de algumas semanas nossas vidas voltarão a ser como eram antes. E é por isto também que a Pós-COVID-19 é ainda mais importante que a própria COVID-19.


A COVID-19 afetou profundamente o nosso modo de vida. O padrão predominante de confrontação compreende, sem dúvida, uma experimentação social sem precedentes. A forma como desativamos as interações sociais diretas e ativamos as interações sociais indiretas indica a plasticidade e, sobretudo, a contingência da vida social. Assim, uma coisa é prever a mudança de costumes, outra é a dinâmica da atividade econômica no próximo trimestre, outra ainda é a criação de um aplicativo de rastreamento de pessoas em tempo real. Portanto, quando examinamos as tendências Pós-COVID-19, precisamos perguntar: estamos preparados para aceitar novas mudanças sociais?


Por isto, para pensar a Pós-COVID-19 é preciso considerar o processo de mudança social. O processo de mudança social constitui um dos maiores mistérios sociológicos. Apesar de mais de cento e cinquenta anos de conhecimentos acumulados ainda não existe ainda um consenso de porque os contextos sociais mudam. O que se sabe é que o processo de mudança social e, consequentemente, da ordem social, se estabelece por meio de uma relação entre o plano individual (micro = preferências/esquemas) e o plano subjetivo (macro = recursos/regras): algum tipo de ligação que leva da sociedade ao indivíduo, e o indivíduo à sociedade.


Neste sentido, quando se projetam os cenários Pós-COVID-19 é preciso considerar simultaneamente a relação entre o plano individual e o plano coletivo. Estes planos sociais estão relacionados as escalas de espaço e tempo. Neste sentido, as mudanças sociais podem ser concebidas numa escala social global envolvendo todo espaço terrestre; mas também pode ser considerada numa escala intermediária de um setor específico como, por exemplo, o setor econômico; ou pode também se considerada na dimensão das atitudes dos indivíduos. Considerando estes fatores a projeção dos cenários Pós-COVID-19 envolvem as dimensões macro, meso e micro (Figura 1).


a) Cenário Macro: civilizacional. Refere-se as projeções que contemplam a sociedade como um todo. Frequentemente operam dentro de uma dicotomia que opõe fatores positivos (bem) e fatores negativos (mal). Existem muitas projeções neste sentido, mas talvez a mais conhecida tenha sido proposta por Yuval Noah Harari. Neste sentido, na batalha contra a COVD-19 existem duas forças operando conjuntamente: de um lado, operam as forças do fechamento e do controle; de outro, as forças de abertura e de informação. Portanto, as mudanças Pós-COVID-19 pode ser isolamento e desconfiança, ou união e confiança.


b) Cenário Meso: setorial. Este tipo de previsão diz respeito a dinâmica de funcionamento de um subsistema específico. Por exemplo, por quanto tempo a economia mundial ficará deprimida ou ainda a possibilidade de colapso financeira. Nossa tentativa desesperada de manter o vírus a distância, reduziu o consumo, a redução do consumo paralisa a produção, a paralização da produção provoca a demissão de trabalhadores, este processo faz cair a arrecadação, orçamentos estouram. Trata-se, nesta escala, de prever a dinâmica do setor econômico no próximo trimestre pelo acompanhamento de indicadores.


c) Cenário Micro: existencial. Esta escala de mudança diz respeito ao processo de mudanças na dimensão individual. A maior parte dos cenários projetados na escala micro se referem ao que é conhecido como Novo Normal. Tratam-se, neste sentido, de efeitos emergentes provocadas pelo processo de Recessão Social como, por exemplo, manter uma distância de segurança, lavar as mãos; mas também, situações mais insólitas como maior vigilância biométrica, calçadas de mão única, escudos faciais de nível médico no cinema, roupas esterilizáveis ​​à prova de vírus e corpos para permitir “socializar sem distanciar”.


Figura 1 – Escala da mudança social

Isto significa que o estabelecimento de cenários envolve a questão da precisão mudança social. Quanto mais ampla a escala de projeção mais fracos os sinais (baixa resolução empírica = pouca precisão); e, inversamente, quanto mais restrita a escala micro mais fortes os sinais (alta resolução empírica = muita precisão). Assim, ou priorizamos uma grande abrangência, mas com baixa ou média precisão; ou, ao contrário, tomamos a escala micro com alta resolução, mas com pouca abrangência. Portanto, o desafio metodológico da projeção de cenários Pós-COVID-19 é: ou projetamos muito de forma incerta, ou projetamos pouco de forma precisa.


Além disso, a construção de cenários está relacionada não somente com a abrangência social, mas também com a intensidade e densidade das mudanças sociais induzidas pela COVID-19. Isto envolve, ao mesmo tempo, a consideração do tempo necessário para o acionamento e da duração das mudanças sociais. Assim, temos mudanças que são facilmente acionadas, mas também facilmente desligadas; e mudanças que são difíceis de serem acionadas e desligadas. Portanto, nos cenários Pós-COVID-19 é preciso diferenciar também o que são realmente novas tendências, de tendências que já estavam anteriormente incubadas socialmente.


Figura 2 – Escala da mudança social


Portanto, neste contexto é muito fácil confundir as escalas/forças e supor que o nosso contexto social está se dissolvendo. E, consequentemente, que estamos diante de uma espécie de Pontal Social que nos conduz a um “novo começo”, quando na realidade trata-se apenas de poeira cognitiva levantada pelo Surto Informacional. Afinal, não podemos subestimar a força inercial (homeostase da vida social) dos contextos sociais. Mesmo numa época como a nossa as sociedades são mais propensas ordem que a mudanças social. Assim, é mais plausível supor na validade do Princípio de Continuidade. O que encontraremos na Pós-COVID-19 já está incubado socialmente.


Por isto, se equivocar é socialmente tão comum quanto fazer previsões. Afinal, a muito sabíamos do risco sistêmico de uma pandemia, porém ninguém conseguiu prever exatamente a emergência da COVID-19. Isto acontece porque nenhuma sociedade é capaz de controlar os tipos de perturbações que pode sofrer no período Pós-COVID-19. É isto que acontece com as tendências: é muito difícil, senão impossível, saber exatamente o momento e o formato da curva de sino que a maioria das mudanças sociais ocorrem. Como somos incapazes de imaginar e prever exatamente as mudanças sociais, a contingência é uma propriedade constituinte do mundo social.

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