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A ABERTURA DOS CAMPI (09/06/2020)

Dr M. Mattedi

Universidade Regional de Blumenau

mam@furb.br


Mesmo assistindo o aumento do contágio pelo coronavírus, iniciou-se em todo Brasil retorno das atividades educacionais. Este processo é condicionado por dois fatores que se encontram relacionados: a) não é possível retomar as atividades econômicas sem retomar as atividades educacionais; b) a manutenção do isolamento pode acabar comprometendo o ano letivo. Assim, a retomada parece precoce, pois o momento atual exigiria, inversamente, mais rigor no Distanciamento Social. Porém, atualmente não existem condições políticas de implementar medidas de proteção social mais amplas que garantam o isolamento da população.


As atividades educacionais foram as primeiras a serem desativadas. Isto aconteceu, por um lado, porque as atividades educacionais são intensivas em contato direto; por outro, porque, frequentemente, são efetuadas em ambientes fechados. Afinal, alunos e professores são vetores diretos de contágio (transportam vírus de casa para sala de aula e da sala de aula para casa); mas também porque são organizações mais simples de serem desativadas (não constituem atividades essenciais). Como aconteceu em outras atividades é bem possível que a retomada das atividades educacionais acabe intensificando o aumento de contágio.


Isto acontece porque a retomada das aulas presenciais aumenta a frequência de relações sócias diretas. Afinal, implica, simultaneamente, ocupação de espaços fechados e também da formação de aglomerações. Além disso, a maioria dos ambientes educacionais não foram pensados para situações de Distanciamento Social. Assim, significa que se deve considerar a possibilidade de desencadear novos ciclos de transmissão comunitária do Coronavírus. Este processo implica novos fechamentos temporários do campus. Neste sentido, a questão principal da Abertura do Campus é como evitar que alunos e professores se tornem vetores de transmissão da COVID-19.


A resposta tem sido o estabelecimento de protocolos de segurança. Isto implica criar condições para ensinar e aprender e, consequentemente, trabalhar da maneira mais segura. A COVID-19 é um novo fator de risco que deve ser incorporado nas avaliações de risco no local dos ambientes de trabalho. Como parte do processo de abertura é necessário produzir avaliações de risco para os ambientes de estudo e comunitário. Assim, pressupõe compartilhar a avaliação de risco com os alunos e professores e considerar publicar a avaliação de risco em seu site. Afinal, as universidades não podem perder a confiança dos alunos e das famílias. Entre as principais medidas destacam-se:


a) Uso obrigatório de máscaras nas dependências da universidade;

b) Horários diferentes para entrada e saída dos alunos;

c) Horários diferenciados para o lanche;

d) Aferição da temperatura dos estudantes ao entrar na escola;

e) Desinfecção dos calçados e mochilas;

f) Distanciamento entre os estudantes dentro e fora da sala de aula;

g) Sinalização de rotas para que os alunos mantenham distância entre si;

h) Manutenção do ensino híbrido.


Estes protocolos são longos e vão acabar modificando profundamente o ambiente acadêmico. Por isto, não se pode chamar a Abertura do Campus de retorno. As experiências prévias de outros países e a literatura científica especializada apontam que o retorno às atividades presenciais não será como a volta de um recesso tradicional. Isto significa que o ambiente acadêmico será completamente modificado pelos protocolos de segurança. E, sobretudo, os protocolos de segurança afetarão a forma convencional de aprender conjuntamente. Afinal, até que não chegar a imunização seremos obrigados a conviver com o risco.


Neste sentido, com a FURB a situação não é muito diferente. Afinal, as universidades se transformaram num ambiente de risco. Por isto, será necessário o estabelecimento de comitês internos de monitoramento em tempo real nas universidades. Quando retornarmos às salas de aula e aos campi, não retornaremos aos padrões de relacionamento familiares. Portanto, o cuidado e a atenção constante modificarão profundamente as atividades acadêmicas e a forma como o conhecimento é produzido, transmitido e repassado. Este processo pressupõe a consideração de dois fenômenos principais: a) a Recessão Social; b) a Fadiga Digital.


a) Recessão Social: a longa duração do Distanciamento Social tem efeitos profundos sobre a dinâmica em sala de aula. Afinal, depois de mais de três meses sem contatos diretos os alunos e professores pode causar sequelas de longo prazo na dinâmica acadêmica. Neste sentido, a sala de aula pode ser converter no espaço social no qual se materializem-se o medo de infeção, as incertezas financeiras, a falta de informação e ambiente doméstico tóxico. Por isto, é importante evitar que as atividades presenciais em sala aula se tornem mais um fator estressor para alunos e professores.


b) Fadiga Digital: refere-se as patologias cognitivas, emocionais e sociais desencadeadas pelo uso excessivo de plataformas on-line. Embora alguns dos campi estejam fisicamente fechados, o processo de formação continuou em andamento. Além, dos fatores negativos já conhecidos, a Fadiga Digital pode acabar saturando a capacidade de aprendizado dos alunos e a motivação dos professores. Mas estes são apenas a ponta do iceberg de um conjunto profundo de mudanças sociais. Portanto, a Fadiga Digital pode se tornar um obstáculo para as políticas de retomada das atividades educacionais.


A relação entre a Recessão Social e da Fadiga Digital pode provocar efeitos perversos. As diversas crises em curso devem afetar a saúde mental dos alunos e dos profissionais da Educação, ainda que em diferentes formas e graus. Em situações extremas tendem a provocar o aumento da ansiedade e de dificuldades de concentração. Este processo pode gerar dificuldades convivência escolar no retorno às aulas como, por exemplo, aumento de conflitos entre os professores e comportamentos agressivos entre os alunos. Portanto, a mescla de atividades presenciais e mediadas por tecnologia pode, ao mesmo tempo, criar o pior dos mundos: desmotivar professores e alunos.


Figura 1: contexto de abertura dos campi


Mas, ao mesmo tempo, apesar dos desafios e incertezas, as universidades podem servir de experimentação para o processo de abertura. Este processo envolve a consideração de dois conjuntos de fatores: a) Emocional: criação mecanismo de acolhimento de alunos em situação de stress (ação intersetorial); b) Financeira: a criação de um fundo de ajuda para estudantes por meio de doações (isto pressupõe uma boa campanha de marketing para sensibilizar os ex-alunos); c) Treinamento: o estabelecimento de treinamento de segurança obrigatório sobre o convívio durante a COVID-19. Este processo incluiu e deverá continuando a incluir contribuições de vários grupos.


Portanto, a Abertura do Campus não será uma retomada de quando foi fechado. Afinal, o campus se parecerá mais com um hospital que com uma universidade. Por isto, o retorno das atividades acadêmicas exigirá um plano de ações em diversas frentes. Este processo implicará uma articulação intersetorial intensa e uma contextualização regional precisa. Neste sentido, se o Fechamento do Campus aconteceu sem grandes implicações institucionais, a Abertura do Campus exigirá atenção redobrada. Trata-se, portanto, de mudanças que exigirão muito trabalho, criatividade e recursos. Afinal, é importante lembrar que as universidades estão sempre mudando.



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