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  • Maiko Rafael Spiess

FADIGA DIGITAL (11/05)

Prof. Dr. Maiko Rafael Spiess

mspiess@furb.br

As medidas emergenciais para combater a COVID-19 induziram mudanças significativas na rotina de uma grande parcela da população mundial. Uma dessas mudanças é a dupla tendência de diminuição (voluntária ou compulsória) do volume e intensidade dos contatos presenciais e da correspondente intensificação das interações digitais mediadas por tecnologias. De um lado, portanto, temos um processo de Recessão Social; de outro, temos a Inflação Digital e uma possível subsequente Fadiga Digital. A compreensão desses fenômenos é muito importante para avaliar os impactos das medidas de combate à pandemia na vida social.

A Inflação Digital pode ser compreendida como o crescimento do volume de comunicações mediadas eletronicamente. Esse processo vem ocorrendo desde a popularização da Internet comercial, nos anos 1990, mas se acelerou com as mudanças dadas pelo isolamento social durante a pandemia de COVID-19. Dados a respeito do uso de Internet apontam para um crescimento do tráfego de dados no mundo e no Brasil desde o início da pandemia. Em pesquisa realizada recentemente, 77,1% dos estudantes da FURB afirmaram que a quantidade de horas diárias de uso de Internet cresceu, confirmando a tendência no nível local.


Gráfico 1 – Crescimento e redução globais do uso de websites e apps durante a pandemia


Algumas das consequências do aumento do uso de Internet e equipamentos eletrônicos vão sendo percebidas aos poucos. Por exemplo, dados indicam que houve um aumento no uso de computadores pessoais e uma pequena queda no uso dos apps em smartphones (Gráfico 1). Também começam a surgir estudos sobre os efeitos neurológicos e psicológicos do aumento das teleconferências – a fadiga de Zoom (o termo remete ao nome de um popular aplicativo de vídeo chamadas). Neste caso, as análises indicam que o esforço do cérebro para compensar a ausência de sinais não-verbais da comunicação presencial é um dos principais fatores de estresse e cansaço.

Sociologicamente, porém, podemos compreender que a Fadiga Digital é um processo mais amplo. Ou seja, não pode ser compreendido apenas pelo contexto do uso das tecnologias e seus efeitos psicológicos individuais. Na verdade, é possível identificar vários aspectos estruturais e macrossociais que estão em operação e que, potencialmente, se intensificam ao longo do processo de isolamento social. Mais precisamente, podemos relacionar a Fadiga Digital com processos como:

- mudanças nas estruturas temporais (uso e percepção do tempo): em particular, é preciso considerar a experiência ambivalente de vivenciar simultaneamente fluxos curtos e rápidos (característicos da comunicação eletrônica) e longos e lentos (típicos da evolução da pandemia e das políticas para seu combate).

- sobreposição das atividades profissionais, educacionais e afetivas no espaço doméstico: ou seja, o aumento da dificuldade de separação do espaço público e privado, ou mais precisamente, as condições adequadas para a alternância dos papéis profissionais, familiares e afetivos, gerando possíveis conflitos de papéis e atribuições.

- aumento da circulação de informações e o surto infodêmico: o baixo custo para a produção e circulação de informações (tanto verdadeiras quanto falsas ou incorretas) nos coloca em um estado constante de atenção e reação, que se retroalimenta com a interação com outras pessoas, o efeito rumor e a sobrecarga informacional amplificados pelas mídias sociais.

Assim, podemos supor que alguns tipos de contatos sociais se tornam mais comuns, enquanto outros declinam. Portanto, quanto mais tempo passamos em isolamento, mais estamos propensos a sentir a Fadiga Digital. Logo, se no início do distanciamento social ampliamos o volume e a intensidade das interações eletrônicas para compensar as mudanças na rotina, gradualmente os impactos individuais e coletivos da Inflação Digital parecem favorecer a transição para as fases de irritação e desativação do engajamento social com as medidas de isolamento.

Figura 1: Inflação Digital e Recessão Social


Também é necessário observar que a Fadiga Digital atinge diferentes perfis socioeconômicos de formas distintas: algumas profissões podem estar mais adaptadas à mudança do que outras; classes médias que já estão mais familiarizadas com a cultura digital serão menos afetadas do que as classes baixas, que estão menos integradas em um mundo mediado tecnologicamente; gerações mais jovens podem sentir seus efeitos de forma mais branda, enquanto pessoas mais velhas sentem com maior intensidade o cansaço decorrente das formas on-line de interação. Nesse sentido, a Fadiga Digital potencializa assimetrias sociais previamente existentes.

Quadro 1: Matriz de Capacidade de adaptação x Intensidade do uso


Nesta direção, a propensão para a Fadiga Digital durante a COVID-19 pode ser medida pela relação entre a Intensidade do uso (contexto social, compromissos etc.) e a Capacidade de adaptação (disposições e habilidades individuais). No caso específico de pessoas com poucas condições de conversão para a sociabilidade digital e pouca capacidade de adaptação, a Inflação Digital pode implicar em um processo de exclusão dada pela incapacidade de integração. Nas demais situações, a intensidade do esgotamento com os meios de interação digitais pode variar e, dessa forma, ser menos ou mais significativo durante a experiência do distanciamento.

Em resumo, essas questões e ressalvas explicitam os limites da adoção da interação online durante e após a pandemia. Afinal, para muitas pessoas os processos de Inflação Digital podem gerar um estresse significativo e até mesmo a exclusão de novas formas de sociabilidade. No entanto, mesmo nos casos de não-exclusão, a Fadiga Digital pode diminuir a qualidade de vida e bem-estar psicológico das pessoas. Logo, é possível que venhamos a observar em algumas áreas uma retração ou perda de interesse pelas atividades online, e uma busca pelo incremento das interações presenciais.

Portanto, a Fadiga Digital pode se tornar um obstáculo para as políticas de isolamento e contenção da pandemia. Em outras palavras: somada a outros fatores de desmobilização como o uso político da crise ou imposições econômicas e de renda, a Fadiga Digital pode contribuir para a gradual insustentabilidade do isolamento para certos perfis sociais, pois afinal diminui a capacidade de resiliência durante a emergência. Assim, é importante que se procure dosar possíveis excessos no incremento das atividades online, resguardando os indivíduos do estresse decorrente da necessidade de adaptação às interações remotas.

Finalmente, devemos considerar que alguns dos hábitos e formas de interação digitais possam ganhar um caráter de irreversibilidade. Ou seja, é possível que em vários setores produtivos e áreas da vida o aumento da produtividade e o trade-off entre distanciamento e segurança façam com que relações mediadas digitalmente se tornem procedimentos rotinizados e institucionalizados. Isso indica que a Fadiga Digital poderá persistir - em alguns setores e para algumas pessoas - após o fim ou desaceleração da emergência pandêmica. Dessa forma, é ainda mais necessário acompanhar atentamente os diversos efeitos possíveis do fenômeno.

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