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A SOCIEDADE SEM CONTATO (31/03/20)

Atualizado: Abr 3

Dr M. Mattedi Universidade Regional de Blumenau mam@furb.br


Depois da COVID-19 o supermercado se tornou um dos únicos lugares aonde às pessoas ainda mantém interações diretas. É que neste período de isolamento social os supermercados constituem um dos últimos espaços onde existe reunião de pessoas. Um lugar onde as interações sociais podem ser estabelecidas diretamente. Porém, as relações entre as pessoas nos supermercados não são mais como eram antes. O que antes era considerada uma atividade corriqueira agora exige planejamento. Afinal, é o contato entre as pessoas que permite a propagação do vírus. Por isto, os supermercados acaram assumindo um novo significado sociológico.


Visitar um supermercado na COVID-19 é uma experiência marcante porque permite acompanhar os efeitos do isolamento social. Cancelas abertas, fornecimento de álcool gel na entrada, higienização dos pegadores dos carrinhos de compras, faixas vermelhas delimitando a distância entre as pessoas... Tudo é feito para que os consumidores se sintam seguros. Porém, nada disso parece suficiente. Apressadas e desconfiadas as pessoas se evitam. Cobertas de mascarras e luvas, nem sequer se olham. Tentam reunir o que precisam o mais rápido possível e procuram manter a maior distância possível. E, nos carrinhos, alimentos não perecíveis e muito material de higiene.


Este processo constitui um efeito emergente da gestão do COVID-19. Para os especialistas a estratégia mais eficaz de gestão é o Confinamento Social. Parte do pressuposto que limitando as interações diretas o contágio diminui. Ou seja, quanto mais pessoas uma pessoa encontra, maior é o risco de contágio. De modo que se as pessoas permanecerem isoladas então elas estarão seguras. Neste sentido, a experiência dos supermercados indica que a esfera privada (doméstica) equivale a segurança, enquanto a espera pública (supermercado) equivale a insegurança. Consequentemente, quanto mais intensa a interação direta, maior o risco de contaminação.


Porém, inversamente, o aumento da extensão da segurança implica, necessariamente, uma diminuição das interações sociais diretas. O problema são os efeitos em contextos sociais onde o contato direto é muito intenso. Ou seja, para as pessoas e as atividades que dependem de interações profissionais e pessoais diretas. Neste sentido, a questão sociológica é determinar quais são os efeitos da duração do isolamento sobre o padrão de interação entre as pessoas. Dito de outra forma, se encontrar pessoas se tornou um risco, o que acontece com os padrões de sociabilidade quando o contato social direto não é mais possível?


Os sociólogos sempre conceberam o contato direto como uma condição indispensável da sociabilidade humana. Neste sentido, a disrupção da vida cotidiana constitui um tema muito estudado na sociologia dos desastres. O conhecimento acumulado na pesquisa em situações de emergência indica que não existe uma descontinuidade entre o período antes, durante e depois. As condições sociais existentes no período pré-impacto se transferem para as condições trans e pós-impacto. Este processo é descrito como Princípio de Continuidade: as condições sociais do Tempo-1 (pré-impacto) se transferem para as condições no Tempo-2 (trans e pós-impacto).


Portanto, para entender os efeitos do Confinamento Social nas formas de sociabilidade é preciso considerar o padrão de socialização predominante. Isto significa que se se quiser entender os efeitos da COVID-19 nas as relações sociais precisamos entender como elas estavam configuradas. Mais precisamente, se a visita ao supermercado revela que a COVID transformou o espaço público, ela também redefiniu, simetricamente, o espaço privado. Portanto, se no espaço público a eclosão da COVID-19 significou uma diminuição da intensidade das relações sociais, no espaço privado, inversamente, representou um aumento das relações domésticas.


Assim, para uma parte da população ligada ao setor de serviços o isolamento social obrigou a transferência das atividades profissionais para o espaço doméstico. Este processo teve duas consequências principais: a) a primeira a adoção das práticas de home office; b) a segunda a diluição das fronteiras entre trabalho e recreação. O efeito combinado foi tanto o aumento da dependência de recursos digitais, quando o reaprendizado da vida em família. Portanto, para os grupos sociais ligados ao setor de serviços o Isolamento Voluntário constitui a desmaterialização dos contatos produtivos e, inversamente, a rematerialização dos contatos familiares.


Porém, para a outra parte da população, submetida aos vínculos de trabalho precarizados, o processo deve ser invertido. Diante das condições econômica e social existentes antes, o risco de contaminação não altera significativamente as condições de vulnerabilidade. Quando se encontra exposto a violência, ao desemprego, a desnutrição ou a falta de assistência o Confinamento Social não significa segurança, mas, ao contrário, uma ameaça suplementar. Neste sentido, a suscetibilidade deste grupo impõe uma Aglomeração Compulsória. Consequentemente, a impossibilidade de Confinamento Social materializa as condições de vulnerabilidade social.


Ou seja, indica que a insegurança e, consequentemente, a segurança estão distribuídos socialmente de forma desigual. Afinal, se para um grupo social se proteger significa diminuir o contato direto (Isolamento Voluntário), para outro, ao contrário, significa aumentar a vulnerabilidade (Agregação Compulsória). É por isto que para o cliente do supermercado segurança é diminuir os contatos, enquanto para os trabalhadores do supermercado segurança é interagir diretamente com os clientes. Na verdade, a disposição diante do risco de contaminação reflete a assimetria de escolhas dos grupos sociais na medida que exprime as condições sociais existentes.


A crise da COVID-19 é um acontecimento que revela a dinâmica social subjacente. Por isso, uma visita ao supermercado deixa duas constatações sociológicas de alcance mais amplo: a) A insegurança é inversamente proporcional a condição social: quanto mais estável a condição social de um indivíduo, maior a sensação de insegurança diante da pandemia; b) A solidariedade é consequência da disponibilidade: quanto maior a necessidade de individuo, menor o compromisso coletivo. Neste sentido, a visita ao supermercado indica que o isolamento de grupos não contém somente o contágio, mas também as formas de sociabilidade convencionais.


A COVID-19 constitui uma oportunidade de observar a plasticidade das normas sociais em tempo real. Neste sentido, a estratégia de gestão predominante baseada no Confinamento Social constitui uma experimentação social sem precedentes. Os resultados desta gigantesca experencia ainda não podem ser plenamente estabelecidos. Porém, já é possível assinalar que à troca de Liberdade por Segurança depende fundamentalmente da condição social dos indivíduos. A relação entre o Isolamento Voluntário e a Agregação Compulsória no supermercado ensina que quanto maior a liberdade de escolha dos indivíduos, maior a busca por segurança.

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