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  • Maiko Rafael Spiess

NOVOS RESULTADOS SOBRE AS AULAS REMOTAS

Prof. Dr. Maiko Rafael Spiess

mspiess@furb.br

A continuidade da pandemia de COVID-19 e das medidas de distanciamento para a proteção da população impõem enormes desafios. Do ponto de vista das instituições, implicam em alterações nas práticas e procedimentos. Para os indivíduos, significam adaptações mais ou menos forçadas na rotina, nas formas de interação e na gestão do tempo. Nesse contexto, um dos maiores desafios é a adequação das práticas de ensino-aprendizagem. No ensino fundamental e médio (e principalmente na rede pública), esta adaptação tem sido caracterizada, por exemplo, por desafios relacionados ao acesso aos conteúdos e à condução das atividades.

No contexto do ensino superior as soluções também são variadas. Em algumas instituições, houve a opção pela suspensão completa das atividades. Em outras, como no caso da FURB, optou-se por atividades remotas, mediadas tecnologicamente. Este momento único da FURB já foi analisado anteriormente, seja do ponto de vista das condições materiais e práticas dos estudantes para as atividades ou dos impactos de sua continuidade no médio e longo prazo. Essas reflexões foram baseadas na análise de resultados de pesquisa quantitativa, conduzida pelo NET – Núcleo de Estudos da Tecnociência, entre 13 e 18/04.


Uma nova rodada de pesquisa, realizada com os estudantes da FURB entre 04 e 11/05, permite aprofundar a discussão e continuar verificando essas hipóteses. Sobretudo, esses dados e o debate sobre eles permitem à Universidade compreender melhor os desdobramentos da pandemia, considerando especialmente seus impactos futuros nos processos pedagógicos e suas implicações formais e administrativas. Ou seja, permitem um processo de reflexividade: conhecer melhor os posicionamentos e necessidades dos estudantes para conduzir o processo de forma mais informada e dialógica.


Gráfico Interativo 1


Em um primeiro momento, é preciso analisar a evolução da adaptação às aulas remotas (Gráfico Interativo 1). Comparando os resultados da primeira e da segunda rodadas, é possível observar que os percentuais de estudantes com baixo nível de adaptação (de 1 até 4 na escala) permanecem estáveis. Nos níveis de adaptação intermediários (de 5 até 7), é possível perceber uma pequena queda em percentuais. No entanto, nos maiores níveis de adaptação (9 e 10) se percebe um aumento da adequação. Quando considerada a média das respostas, a variação positiva é de apenas 0,13%.


Esses dados permitem algumas interpretações. Em primeiro lugar, em um sentido positivo, é possível supor que exista um perfil de estudantes que reagiu positivamente ao processo de aprendizado institucional e à estabilização das práticas das aulas remotas. Em segundo lugar, parece existir um perfil de estudantes que não estava adaptado e que também não alterou sua percepção neste quesito. Terceiro, é possível conceber um perfil onde a adaptação caiu, possivelmente associada ao fim do “efeito novidade”, ao aumento da intensidade das interações online e, com isso, a uma sobrecarga informacional e um processo de Fadiga Digital.

Gráfico Interativo 2

Os resultados sobre o sentimento de falta das aulas presenciais (Gráfico Interativo 2) parecem confirmar essas interpretações. Neste aspecto, foi solicitado que os estudantes indicassem suas opiniões em uma escala de 1 (Não sinto nenhuma falta) até 10 (Sinto muita falta). Em linhas gerais, se observa uma regularidade em relação às respostas obtidas na primeira rodada, com oscilações dentro das margens de erro. A única exceção marcante é no nível máximo, onde se observou um aumento de 10,24% no perfil dos que sentem muita falta das aulas presenciais. Em termos médios gerais, o sentimento de falta das aulas presenciais cresceu 0,40%.

Gráfico Interativo 3


Na segunda rodada de pesquisa os estudantes responderam também sobre suas condições práticas para as aulas (conexão de Internet, ambiente e equipamentos adequados etc.) e sua satisfação geral com as atividades (qualidade das aulas e conteúdo). Os resultados gerais podem ser consultados no Gráfico Interativo 3 (acima). Em ambas as dimensões, é possível observar que mais de 60% dos respondentes afirmam possuir condições e índices de satisfação entre 8 e 10. Em linhas gerais, isso permite afirmar que os estudantes da FURB possuem boas condições práticas (média de 7,21) e que avaliam positivamente as aulas em regime remoto (média de 6,85).

No entanto, é necessário fazer algumas análises mais detalhadas. Afinal, nem todos os estudantes pensam e agem de maneira igual. Existem variações importantes quando consideramos a realidade dos diferentes Centros e Unidades e, ainda mais especificamente, as condições reais de cada curso. O Gráfico Interativo 4 (abaixo) permite perceber algumas especificidades e regularidades a respeito das duas dimensões aqui abordadas. Neste ponto, por exemplo, é importante ressaltar que os resultados para cursos com baixos números de respostas podem não corresponder ao quadro real da opinião de todos os estudantes.

Gráfico Interativo 4

(utilize a legenda para exibir ou ocultar os Centros e unidades)

No caso de cursos com maior número de respostas (como Direito, com 62 respostas) é possível assumir que as respostas sejam mais próximas das condições reais do conjunto dos alunos. De toda forma, o desafio institucional colocado para o momento atual é manter ou melhorar as condições observadas. Além disso, é necessário considerar as dificuldades relacionadas ao aumento do tempo decorrido desde o início do Distanciamento Social, à necessidade do cumprimento da carga-horária de atividades práticas em alguns componentes curriculares e à adesão ao calendário acadêmico. Todas estas questões implicam esforço e ajustes coletivos.


É claro que esses ajustes e dificuldades trazem questionamentos sobre a continuidade das aulas em regime remoto. Nesse sentido, por um lado, a solução do retorno das aulas presenciais em condições normais ainda está vedada legalmente; além disso, poderia ser prejudicada pelo medo generalizado do contágio. Por outro lado, em uma posição mais drástica, existiria a solução do cancelamento total do semestre – posição defendida por 19,34% dos estudantes na última pesquisa (Gráfico Interativo 5, abaixo). No entanto, a manutenção das aulas online, apesar de todas suas limitações, continua sendo apoiada por 70,3% dos respondentes.

Gráfico Interativo 5


Tudo indica que o pico da pandemia ainda não foi atingido. Por isso, a posição dos alunos é fundamental para sinalizar aos professores e à gestão superior quais os próximos passos a serem tomados. O ponto central é, portanto, combinar a segurança da comunidade universitária com a melhor qualidade e aproveitamento possíveis para as aulas teóricas. Apesar de algumas dificuldades e problemas pontuais, os dados das pesquisas indicam que o processo de adaptação da FURB foi suficientemente bem sucedido para garantir a continuidade desta solução excepcional até quando for seguro para todos.

Por fim, vale lembrar que a natureza do financiamento privado da FURB (mensalidades dos alunos) torna mais complexas as decisões sobre as atividades durante a pandemia e o retorno das atividades presenciais. Resumidamente, o dilema é: não é possível suspender completamente as aulas, mas também é não responsável retomá-las sem cuidados. No entanto, os dados indicam que a FURB tem boas condições para atravessar esta crise. Para isso, é muito importante que continuemos atentos aos efeitos das aulas remotas em nossa comunidade, realizando os ajustes necessários para resistir aos efeitos de média duração do isolamento e da digitalização da vida cotidiana.

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