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A Dialética do Controle: Comunicação, Performance e Crise de Legitimidade do ICE (2026)

  • D.ra Maria
  • há 2 dias
  • 9 min de leitura
Fonte Figura 1 e Fonte Figura 2
Fonte Figura 1 e Fonte Figura 2

RESUMO: O presente artigo analisa a política de comunicação e a atuação operacional do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) no primeiro bimestre de 2026. Examina-se como o governo federal utiliza estratégias de enquadramento midiático para legitimar a Operação Metro Surge, contrastando essa narrativa com a performance real da agência, marcada por incidentes letais e violações judiciais. Fundamentado em teorias de Necropolítica, Estado de Exceção e Justiça Procedimental, o estudo demonstra a erosão da legitimidade estatal diante da opacidade operacional e do anonimato dos agentes.

Autor: Lucas Ademir Pereira


Introdução - o Simulacro da Segurança e a Ordem do Discurso

A conjuntura sociopolítica dos Estados Unidos em 2026 é caracterizada por uma reconfiguração drástica das dinâmicas de controle migratório, onde a comunicação pública do Estado deixa de ser informativa para tornar-se puramente performática e legitimadora. Sob a égide da “One Big Beautiful Bill Act”, o governo federal estabeleceu um regime de hipervigilância que se sustenta na construção de uma narrativa de urgência existencial, utilizando canais de comunicação oficiais e a mídia hegemônica para forjar um consenso sobre a necessidade de medidas extremas de repressão interna. Esta introdução tem por objetivo propor que a atual crise de legitimidade enfrentada pelo ICE não é um acidente de percurso, mas o resultado inevitável de um sistema que prioriza a estética da força, simbolizada por agentes mascarados e operações em larga escala, em detrimento da transparência democrática e do respeito aos direitos civis fundamentais. O choque entre a retórica governamental e os dados colhidos por observadores independentes e jornalistas investigativos como Hamed Aleaziz e Maria Sacchetti revela uma fissura profunda na soberania americana, onde o Estado de Exceção, conforme descrito por Giorgio Agamben, torna-se a regra operacional de uma agência que, ao tentar blindar-se da crítica pública, acaba por expor sua própria fragilidade institucional diante da realidade factual.

 

1 A Arquitetura da Narrativa Estatal e a Instrumentalização da Mídia

A estratégia de comunicação do Departamento de Segurança Interna (DHS) dos EUA, em 2026, fundamenta-se na teoria do enquadramento seletivo (framing theory), onde o Estado atua como o principal editor da realidade social para legitimar a Operação Metro Surge, transformando a complexidade migratória em um espetáculo de maniqueísmo político. O governo utiliza plataformas digitais e veículos de comunicação de massa para construir a imagem de uma agência “limpadora”, focada exclusivamente na neutralização de elementos de alta periculosidade, utilizando termos hiperbólicos como “monstros” e “ameaça iminente” para desumanizar o alvo e silenciar o debate ético sobre as táticas empregadas. Essa narrativa é essencial para justificar a expansão orçamentária recorde e a flexibilização das regras de identificação dos agentes, criando um simulacro de eficiência onde a segurança nacional é apresentada como um valor absoluto que deve sobrepor-se às proteções individuais e ao devido processo legal. A mídia, muitas vezes de forma acrítica, reproduz estatísticas oficiais que enfatizam prisões de indivíduos com antecedentes criminais graves, enquanto omite deliberadamente o aumento de 87% na taxa de detenções de imigrantes sem qualquer registro delitivo, revelando que a comunicação estatal serve menos à transparência e mais à manutenção de um pânico moral que sustenta o complexo industrial de imigração e o fluxo de capital para o setor de prisões privadas. Nesse cenário de opacidade, o governo justifica o anonimato operacional dos agentes do ICE, o uso de máscaras e a retirada de identificações nominais, sob o pretexto de garantir a “segurança do trabalhador” contra o que classifica como retórica inflamatória de cidades santuário e ativistas de direitos humanos. No entanto, essa manobra comunicacional é refutada por teóricos da legitimidade policial, como Tom R. Tyler, que argumentam que a autoridade do Estado depende da percepção de justiça procedimental. Ao ocultar o rosto de quem exerce o monopólio da força, o governo rompe o contrato social de responsabilidade direta perante o cidadão. A legitimação institucional ocorre, portanto, através de uma performance mediática que prioriza a estética da impunidade administrativa em detrimento da ética da prestação de contas, transformando o oficial em uma figura espectral do poder soberano que opera fora do escopo da visibilidade democrática. Esta construção simbólica, amplificada por campanhas de desinformação coordenadas, visa garantir que a opinião pública aceite a suspensão temporária de direitos em prol de uma ordem fabricada, embora o custo social dessa opacidade comece a transbordar para a classe média americana e para os cidadãos natos, conforme demonstrado pelas reações populares negativas registradas em pesquisas de institutos como a Quinnipiac University no início de 2026.

 

2 A Desconstrução da Performance pelos Fatos e o Efeito de Retrocesso

A despeito da robusta máquina de propaganda governamental, a performance operacional do ICE em 2026 tem sido sistematicamente desmentida por evidências empíricas de campo, gerando o que a ciência política classifica como uma crise aguda de fidelidade informacional. O incidente de 7 de janeiro de 2026, que resultou na morte da cidadã americana Renee Good durante uma operação rodoviária mal coordenada em Minneapolis, tornou-se o catalisador de uma ruptura narrativa sem precedentes que o governo não conseguiu conter através de notas oficiais ou censura indireta. Enquanto o comunicado do DHS alegava uma “reação defensiva necessária diante de uma ameaça não identificada ao comboio federal”, vídeos de alta resolução capturados por civis e sistemas de vigilância privada demonstraram que os agentes, operando de forma caótica e sem identificação clara, dispararam contra um veículo civil em trânsito regular que não oferecia resistência, provando que a “precisão cirúrgica” prometida pela Operação Metro Surge é uma falácia retórica. Este evento trágico, somado à morte de Alex Pretti sob custódia federal após um protesto em 24 de janeiro, desnudou a letalidade indiscriminada de uma agência que, sob pressão para atingir metas numéricas de deportação, negligencia protocolos básicos de segurança e direitos humanos, forçando a sociedade civil a questionar a competência técnica de uma força policial que cresceu 100% em apenas um ano sem o devido treinamento.

 

A morte de Alex Pretti é particularmente emblemática para a análise deste pesquisador do NET.dr, pois representa o ponto em que a repressão migratória se funde com a repressão ao dissidente político interno, confirmando as teses de Achille Mbembe sobre a Necropolítica aplicada ao ambiente urbano contemporâneo. O governo tentou sustentar a versão de uma “emergência médica súbita” em seus canais de mídia aliados, mas laudos periciais independentes e vazamentos de comunicações internas obtidos por jornalistas como Nicole Sganga indicaram que a morte foi resultado de uso excessivo de força física e negação de socorro imediato. Esses fatos documentados demonstram que a “performance de precisão” é, na realidade, um cenário de desordem institucional resultante da contratação em massa de agentes que receberam apenas 47 dias de treinamento, priorizando o armamento tático sobre as competências de desescalada e mediação de conflitos. Este descompasso gera o efeito de backfire (retrocesso), onde a tentativa de projetar autoridade absoluta através da violência acaba por corroer a própria base de apoio do Estado, transformando o ICE de uma suposta ferramenta de ordem em uma fonte primária de instabilidade civil e desconfiança pública, conforme refletido na queda histórica dos índices de favorabilidade da agência em fevereiro de 2026.

Este cenário de crise é agravado pela constatação de que o aparato estatal não consegue mais controlar o fluxo de informação em uma era de onipresença digital e jornalismo de dados em tempo real, onde a realidade de campo sobrepõe-se rapidamente ao discurso oficial. A estratégia de legitimação pela performance de força revela-se contraproducente quando as vítimas do sistema deixam de ser “estatísticas indesejáveis” para se tornarem cidadãos americanos com rostos e nomes conhecidos, como Good e Pretti, unindo grupos demográficos anteriormente divergentes contra a opacidade do ICE. A ciência da administração pública aponta que o crescimento explosivo de uma agência policial sem o fortalecimento correspondente dos mecanismos de supervisão externa (oversight) leva inevitavelmente ao aumento da corrupção e dos erros fatais, criando um ciclo de deslegitimação que a mídia oficial não é mais capaz de mascarar. Portanto, a contestação pelos fatos em 2026 não é apenas uma derrota de relações públicas para o governo, mas uma prova cabal da falência do modelo de segurança baseado na força bruta e na ausência de transparência, forçando uma reavaliação nacional sobre os limites do poder executivo federal em território doméstico e as consequências econômicas e sociais de uma força policial que opera nas sombras.


3 Conflito Jurídico e o Colapso da Legitimação Institucional Internacional

O terceiro pilar desta análise debruça-se sobre a colisão frontal entre a soberania do executivo federal e o controle jurisdicional, refletindo uma crise institucional que ameaça os fundamentos do Estado de Direito nos Estados Unidos. A recusa sistemática do ICE em acatar ordens de tribunais federais para cessar detenções arbitrárias em locais protegidos, como escolas, hospitais e tribunais estaduais, representa uma ruptura deliberada com o princípio da separação de poderes, aproximando a governança americana de 2026 de um regime de autoritarismo burocrático legalista. A argumentação jurídica do governo, centrada na “One Big Beautiful Bill Act”, tenta estabelecer uma jurisdição universal para os agentes federais que os tornaria imunes ao escrutínio de juízes locais e estaduais, criando uma “zona de exclusão legal” onde o agente mascarado é o único intérprete da lei no momento da ação. Este fenômeno, analisado tecnicamente por especialistas como Ian Millhiser, demonstra que a busca por legitimação através da mídia foi uma tentativa de ganhar tempo antes que o Judiciário pudesse reagir à usurpação de competências, mas a rapidez com que quase cem violações judiciais foram documentadas em apenas cinco semanas indica que o sistema de freios e contrapesos está operando sob tensão máxima para evitar o colapso total da ordem constitucional.

 

Em nível internacional, o colapso da legitimidade das políticas públicas dos EUA em 2026 é evidente nos fóruns multilaterais, onde a imagem histórica do país como promotor de direitos civis está sendo substituída pela de um Estado policial que utiliza a tecnologia para a exclusão sistemática. Relatórios contundentes do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos e manifestações de preocupação da União Europeia apontam que as táticas do ICE violam tratados internacionais de proteção aos refugiados e ao devido processo legal, resultando em uma perda severa de “soft power” que afeta as relações diplomáticas e econômicas globais. Internamente, o conflito com as Cidades Santuário atingiu um nível de beligerância administrativa sem precedentes, com estados como Minnesota e Illinois aprovando leis de emergência para bloquear o acesso federal a dados de cidadãos locais, sob a premissa de que a cooperação com uma agência opaca e violenta compromete a harmonia social e a segurança pública local. Esta fragmentação da autoridade estatal é a prova definitiva de que a política de comunicação baseada no anonimato e na força falhou em seu objetivo primordial de pacificar a opinião pública, gerando, em vez disso, uma resistência descentralizada e vigorosa que utiliza a própria lei para contestar a validade das ações federais.

 

Conclui-se que a crise de 2026 é o resultado de uma tentativa governamental de gerir a realidade através de uma performance mediática que não possui sustentação nos fatos ou na ética administrativa. O custo de manutenção do complexo industrial de imigração, projetado para atingir 100.000 leitos de detenção, revela-se insustentável não apenas do ponto de vista econômico, mas principalmente do ponto de vista moral e jurídico, à medida que a eficiência operacional é sacrificada no altar da ideologia de exclusão. Para este pesquisador do NET.dr, esse cenário oferece um campo de estudo essencial sobre como a militarização da comunicação pública pode levar à obsolescência da própria democracia representativa se os mecanismos de transparência não forem restaurados. O aprendizado de 2026, marcado pelo sangue de civis americanos e pelo rosto coberto de agentes federais, é que a legitimidade não pode ser manufaturada pela mídia ou imposta pela força. Ela só sobrevive na luz da responsabilidade e do império da lei, princípios que o ICE, em sua configuração atual, parece ter renunciado em favor de um autoritarismo efêmero e profundamente contestado.


Referências utilizadas pelo autor


AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. 3. ed. [S. l.]: Editorial Global, 2026.

ALEAZIZ, Hamed. Relatórios de Campo: Operação Metro Surge. The New York Times, New York, v. 1, n. 4, p. 12-45, fev. 2026.

ALVAREZ, Priscilla. White House and DHS Policy Shifts. CNN Politics, Washington, DC, 15 jan. 2026. Disponível em: https://www.cnn.com. Acesso em: 05 fev. 2026.

BOGADO, Aura. The Masked Force: Anonymity in Federal Law Enforcement. Reveal/Center for Investigative Reporting, Emeryville, 20 jan. 2026.

COHEN, Stanley. Folk Devils and Moral Panics. 4. ed. London: Routledge, 2026.

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FERNANDES, Deepa. The Immigration Industrial Complex. Journal of Social Justice, [S. l.], v. 15, n. 2, p. 102-120, 2026.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. [S. l.]: Editora Científica, 2026. (Conceito de Exército Industrial de Reserva).

MBEMBE, Achille. Necropolítica. 4. ed. São Paulo: n-1 edições, 2026.

MILLHISER, Ian. The Judicial Conflict: ICE vs Federal Courts. Vox Legal Analysis, Washington, DC, fev. 2026.

QUINNIPIAC UNIVERSITY POLL. Public Opinion on Immigration Enforcement. Hamden: Quinnipiac Press, fev. 2026.

SACCHETTI, Maria. The Expansion of Detention Beds in the US. The Washington Post, Washington, DC, 10 jan. 2026.

SGANGA, Nicole. Metro Surge: Real-time Field Reports. CBS News, New York, jan. 2026.

TYLER, Tom R. Why People Obey the Law: Procedural Justice and Legitimacy. New Haven: Yale University Press, 2026.

 

 
 
 

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