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Quando o clima extremo encontra a desigualdade: notas sobre desastres, vulnerabilidade e produção social do risco

  • D.ra Maria
  • há 2 horas
  • 7 min de leitura

 

Imagem de satélite explicitando a extensão das enchentes no estado do Rio Grande do Sul em maio de 2024, capturada pelo Copernicus Sentinel-2 e analisada pelo Copernicus Emergency Management Service (CEMS) - União Europeia.
Imagem de satélite explicitando a extensão das enchentes no estado do Rio Grande do Sul em maio de 2024, capturada pelo Copernicus Sentinel-2 e analisada pelo Copernicus Emergency Management Service (CEMS) - União Europeia.

O artigo discute como a intensificação dos eventos climáticos extremos, observada globalmente e no Brasil, produz impactos desiguais sobre territórios e populações. A partir de evidências empíricas recentes e do caso brasileiro, argumenta-se que a letalidade dos desastres não decorre apenas dos fenômenos físicos, mas da interação entre exposição, vulnerabilidade social e capacidade institucional. Defende-se que a redução de riscos e a adaptação climática exigem políticas públicas integradas, com centralidade nas políticas sociais e na justiça climática, como estratégias de proteção da vida.


Introdução


As mudanças climáticas deixaram de ser um horizonte distante para se manifestarem como experiência cotidiana em diversas regiões do planeta. Eventos extremos como ondas de frio atípico na Europa - que deixaram praias congeladas na Polônia -, megatempestades e riscos de temperaturas de até –50 °C nos Estados Unidos, e dias extraordinariamente frios em cidades como Miami têm sido registrados com frequência crescente (G1, 2026; UOL Notícias, 2026; O Globo, 2026). Esses episódios não só refletem a intensificação da variabilidade climática, como também evidenciam que extremos de frio e calor estão ocorrendo fora de padrões históricos, desafiando modelos anteriores que associavam aumento de eventos extremos apenas ao aumento da média de temperatura.

 

No Brasil, os eventos climáticos extremos assumem contornos particularmente graves. As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024 foram classificadas pela Agência Nacional de Águas como o maior desastre natural da história do estado, com cerca de 2,4 milhões de pessoas impactadas, 183 mortes e prejuízos econômicos significativos (ANA, 2025). Episódios recentes envolvendo ciclones extratropicais e tornados, como os que afetaram diferentes regiões do país em 2025, reforçam que os extremos climáticos já fazem parte do presente e afetam de maneira desigual territórios e populações (Caniato, 2025).

 

Esses fenômenos não apenas ameaçam vidas, mas também testam a capacidade das políticas públicas de resposta, proteção social e saúde coletiva frente à emergência climática. Entender por que determinados desastres resultam em maior mortalidade do que outros e por que algumas populações são desproporcionalmente afetadas é um desafio tanto empírico quanto conceitual.

 

1 Eventos climáticos extremos: um fenômeno global, impactos desiguais

 

Os registros contemporâneos de extremos climáticos mostram que o aquecimento global está se manifestando em padrões mais complexos do que simples aumento de temperaturas médias. Eventos como praias congeladas na Polônia, tempestades de gelo nos EUA e dias excepcionalmente frios em áreas urbanas subtropicais ilustram que a variabilidade climática também está se ampliando, com extremos de frio ocorrendo em latitudes e épocas inesperadas (G1, 2026; UOL Notícias, 2026; O Globo, 2026). Ao mesmo tempo, as ondas de calor continuam a registrar recordes de temperatura em diferentes regiões do mundo, conforme observado em análises de eventos climáticos extremos (National Geographic Brasil, 2024; Painel de Mudanças Climáticas, 2025).

 

Destarte, apesar da presença global desses eventos, a distribuição dos impactos humanos é desigual. Países e regiões com maior capacidade de planejamento urbano, infraestrutura resiliente e redes de proteção social conseguem reduzir significativamente os efeitos letais dos desastres, mesmo quando confrontados com eventos cada vez mais intensos. Isso indica que a letalidade dos desastres climáticos não é função direta dos eventos físicos, mas de como as sociedades estão estruturadas para enfrentá-los.

 

2 O caso brasileiro: recorrência de desastres e produção social da vulnerabilidade

 

No Brasil, desastres associados a eventos hidrometeorológicos são recorrentes e historicamente concentrados em regiões e grupos sociais específicos, refletindo as desigualdades estruturais do país. Enchentes de grande magnitude no Sul do país em 2024, além de ciclones extratropicais e tornados que atingiram estados como Paraná e Santa Catarina, demonstram que extremos climáticos já se incorporaram ao cotidiano socioambiental brasileiro (ANA, 2025; Caniato, 2025).

 

Santa Catarina é um exemplo paradigmático dessa dinâmica. Estudos oficiais mostram que, entre 1980 e 2010, mais de mil inundações graduais, centenas de enxurradas, estiagens e escorregamentos foram registrados no estado, além de episódios marcantes como o Furacão Catarina em 2004 e os eventos simultâneos e catastróficos de 2008 no Vale do Itajaí (Herrmann et al., 2009; Herrmann, 2014; Marcelino et al., 2005; Frank; Sevegnani, 2009; DC/SC, 2013; Zenatti; Souza, 2009). Essas recorrências apontam que os riscos não são aleatórios, mas expressões de um território historicamente exposto e socialmente vulnerabilizado.

 

Essa vulnerabilidade não é uma característica natural do território, mas resultado de processos sociais de ocupação desigual, fragilidades institucionais e limitações nas políticas públicas de redução de risco. Assim, os desastres no Brasil e em Santa Catarina são manifestações de produção social do risco, em que desigualdades socioeconômicas, padrões de uso do solo e capacidades institucionais diferenciadas estruturam quem morre, quem sofre prejuízos e quem consegue se recuperar.

 

3 O que a evidência científica recente nos ensina

 

Os estudos contemporâneos sobre mortalidade associada a desastres climáticos têm avançado no sentido de articular riscos climáticos, exposição populacional e vulnerabilidade social. Um exemplo é o estudo de Cael (2025), que analisou quase dois mil dos eventos climáticos mais letais registrados entre 1988 e 2024 na base EM-DAT - a maior base mundial de desastres - para diagnosticar tendências e outliers na letalidade desses eventos.

 

Os resultados desse estudo demonstram que o aumento da intensidade ou frequência de fenômenos climáticos extremos não se traduz automaticamente em mais mortes. A mortalidade por desastres é um produto complexo da interação entre o perigo físico, a exposição populacional e a vulnerabilidade social. Em regiões da Ásia, por exemplo, enchentes e tempestades tornaram-se menos letais ao longo do tempo, apesar do crescimento populacional e da intensificação das chuvas extremas, em grande parte devido à redução da vulnerabilidade por meio de melhorias na infraestrutura, nos sistemas de alerta e na capacidade de resposta institucional (Cael, 2025). Estima-se que essas transformações tenham poupado centenas de milhares de vidas ao longo de décadas.

 

Em contraste, na Europa, extremos de temperatura têm se tornado mais letais, com ondas de calor cada vez mais prevalentes, e na África, a frequência de enchentes mortais tem sido explicada principalmente pelo aumento da exposição populacional (Cael, 2025). Eventos extraordinários como o ciclone Storm Daniel em 2023 - identificado como um “outlier” de letalidade extrema - ilustram como a combinação de eventos climáticos intensos e vulnerabilidades sociais pode resultar em tragédias de grande magnitude.

 

Esses achados reforçam que a gravidade dos desastres climáticos é condicionada majoritariamente por fatores sociais e institucionais, e não apenas pelos aspectos físicos dos eventos em si.

 

Considerações finais

 

As evidências empíricas e teóricas apontam para a necessidade de compreender os desastres climáticos como fenômenos socialmente produzidos, nos quais a vulnerabilidade e a organização social e institucional desempenham papéis centrais na determinação dos impactos sobre a vida das populações. Em um contexto de mudanças climáticas irreversíveis no curto prazo, o importante não é apenas registrar eventos extremos, mas entender quem sofre mais com eles e por que isso acontece.

 

No Brasil, essa compreensão exige políticas públicas que integrem a redução de riscos de desastres, o planejamento territorial, a proteção social e o fortalecimento das políticas sociais de atendimento direto às populações mais vulneráveis aos eventos, considerando que as estruturas de proteção coletiva e a capacidade de resposta institucional podem efetivamente reduzir a letalidade dos desastres. Investir na redução de vulnerabilidades e na resiliência comunitária não é apenas uma estratégia técnica de adaptação climática, mas uma política de justiça social e de proteção da vida.


Autoria: Maria Rossi - Assistente Social. Doutora em Desenvolvimento Regional pela FURB. Pós-doutoranda em Serviço Social pela UFSC/SC. Pesquisadora no campo dos desastres socioambientais e da Gestão Integral de Risco de Desastres - GIRD.


Referências


ANA - Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Estudo aponta que enchentes de 2024 foram maior desastre natural da história do RS e sugere caminhos para futuro com eventos extremos mais frequentes. Brasília, 30 abr. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/estudo-aponta-que-enchentes-de-2024-foram-maior-desastre-natural-da-historia-do-rs-e-sugere-caminhos-para-futuro-com-eventos-extremos-mais-frequentes. Acesso em: 03 fev. 2026.

 

CAEL, B. B.. Climate hazard mortality: Diagnosing trends and outliers. Geophysical Research Letters. 2025. DOI: https://doi.org/10.1029/2025GL119218

 

CANIATO, B.. Em uma noite, Paraná foi atingido por três tornados de até 330 km/h. Veja, São Paulo, 10 nov. 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/em-uma-noite-o-parana-foi-atingido-por-tres-tornados-de-ate-330-km-h/. Acesso em: 03 fev. 2026.


Copernicus Emergency Management Service (CEMS). Flooded areas around Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil, visible in this Copernicus Sentinel-2 image from 06 May 2024. União Europeia, Copernicus Sentinel-2 imagery, 2024. Disponível em: https://emergency.copernicus.eu/news/rio-grande-do-sul-flooding-brazil-april-to-june-2024/. Acesso em: 03 fev. 2026.


DELFORGE, H.; GUHA-SAPIR, D.; THIRAN, J.. EM-DAT: The International Disaster Database - 2025 update. Brussels: Centre for Research on the Epidemiology of Disasters (CRED), 2025.

 

G1. Frio na Europa: moradores caminham sobre o mar congelado em praia na Polônia. G1, publicado em 02 fev. 2026. Disponível em:

 

HERRMANN, M. L. de P.; CARDOSO, F.; BAUSYS, F.; PEREIRA, G.. Frequência dos desastres naturais no Estado de Santa Catarina no período de 1980 a 2007. São José dos Campos: INPE, 2009.

 

HERRMANN, M. L. de P.. Atlas de Desastres Naturais do Estado de Santa Catarina: período de 1980 a 2010. Florianópolis: IHGSC, 2014.

 

IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change. Climate Change 2014: Synthesis Report. Geneva: IPCC, 2014.

 

IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Geneva: IPCC, 2022.

 

National Geographic Brasil. O que são eventos climáticos extremos e por que eles são tão perigosos. National Georgraphic, maio 2024. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2024/05/o-que-sao-eventos-climaticos-extremos-e-por-que-eles-sao-tao-perigosos. Acesso em: 03 fev. 2026.

 

O Globo. Miami registra a segunda-feira mais fria dos últimos 15 anos. O Globo, publicado em 02 fev. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/clima-extremo/post/2026/02/nos-estados-unidos-miami-registra-a-segunda-feira-mais-fria-dos-ultimos-15-anos.ghtml. Acesso em: 02 fev. 2026.

 

Painel de Mudanças Climáticas. Eventos climáticos extremos. Painel de Mudanças Climáticas - Observatório Sistema Fiep, publicado em 05 maio 2025.  Disponível em:

 

UOL Notícias. Inferno de gelo: megatempestade e risco de -50 °C nos EUA. UOL Notícias, publicado em 24 jan. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/24/inferno-de-gelo-eua-enfrentam-megatempestade-e-risco-de--50c.htm. Acesso em: 03 fev. 2026.

 
 
 

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