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2026: Desastres, desigualdades e a urgência de proteger a vida

  • D.ra Maria
  • há 3 horas
  • 8 min de leitura
Fonte: Associated Press (2026)
Fonte: Associated Press (2026)

Os primeiros meses de 2026 já registram uma sucessão de eventos extremos em diferentes partes do mundo: ciclones tropicais com forte impacto humanitário na África, ondas de calor e incêndios florestais de grandes proporções na América do Sul e na Oceania, tempestades severas na Europa e enchentes urbanas recorrentes em países do Sul Global.

O ciclone tropical Gezani (notícia de 11 de fevereiro) deixou dezenas de mortos e causou grandes danos em Madagascar; sua infraestrutura foi amplamente afetada, obrigando deslocamentos massivos da população local (AP News, 2026). Em 11 de fevereiro, a Reuters (2026) publicou que, no Hemisfério Sul, ondas de calor recorde e incêndios florestais têm assolado vastas regiões da Argentina, Chile, Austrália e África do Sul, com temperaturas próximas de 50 °C e consequências humanas e ecológicas severas. Publicações de 5 de fevereiro destacaram que, na Europa, tempestades como Leonardo intensificaram enchentes capazes de causar mortes e deslocamentos, evidenciando o caráter extremo e repetitivo dos padrões meteorológicos recentes (Reuters, 2026; AP News, 2026).

No mesmo contexto europeu, a tempestade Kristin resultou em nove mortes, associadas à queda de árvores e estruturas e a acidentes durante reparações de telhados, revelando a crescente exposição da população a eventos meteorológicos severos mesmo em países com infraestrutura consolidada (Expresso, 2026). Em Portugal, um verdadeiro “comboio de tempestades” já contabiliza pelo menos 15 mortes e mantém regiões sob forte preocupação da Proteção Civil, especialmente na região de Coimbra, evidenciando a persistência e a sobreposição de riscos mesmo em territórios com sistemas estruturados de resposta (Diário do Distrito, 2026a, 2026b). O que antes era tratado como “episódio atípico” passa, assim, a configurar um padrão inquietante.

 Não se trata de alarmismo. Trata-se de constatação histórica. A Organização Meteorológica Mundial (WMO, 2026) indica que as ocorrências de clima extremo - incluindo ondas de frio e de calor, precipitações intensas e incêndios - têm aumentado em frequência e impacto ano após ano, reforçando a importância de sistemas de alerta antecipado (WMO, 2026). Relatórios científicos recentes reiteram que o aquecimento global ultrapassa marcos simbólicos e se consolida como realidade concreta. O aumento da temperatura média do planeta, associado à intensificação de eventos extremos, confirma o que o IPCC (2022) já advertia: os impactos climáticos não são projeções distantes, são experiências presentes. A crise ecológica deixou de ser debate técnico e passou a compor a experiência cotidiana de populações inteiras..

 

1 Constatação histórica: o passado como advertência

  Os eventos extremos registrados nos primeiros meses de 2026 não surgem como surpresa. Eles se inscrevem em uma trajetória histórica de intensificação climática que vem sendo documentada por relatórios científicos e por experiências territoriais acumuladas ao longo das últimas décadas.

 O relatório do IPCC (2022) já havia advertido que o aumento da temperatura média global ampliaria a frequência e a intensidade de eventos extremos. O State of the Climate Report (Ripple et al., 2024) reforçou que o planeta atravessa um período de instabilidade climática sem precedentes na história recente. Ondas de calor recordes, incêndios florestais, enchentes de grande magnitude e ciclones mais intensos deixaram de ser exceção para se tornarem parte de um novo padrão.

 Contudo, compreender 2026 exige olhar para trás. Como discutido em análises anteriores, os desastres não são acontecimentos isolados, mas processos que revelam continuidades estruturais (Mattedi; Butzke, 2001; Valencio, 2014; Mattedi et al., 2024). A história recente demonstra que cada grande evento carrega marcas de decisões políticas, modelos de desenvolvimento e formas de ocupação do território que antecedem o impacto. O passado, portanto, não é memória distante - é base explicativa do presente. Mas há algo ainda mais grave: os desastres continuam atingindo de forma desigual.

  

2 Quando o clima extremo encontra a desigualdade

  Se os fenômenos climáticos se intensificam, seus efeitos não se distribuem de forma homogênea. Como sustenta a perspectiva da Justiça Ambiental (Acselrad, 2004), os danos ambientais incidem desproporcionalmente sobre populações historicamente vulnerabilizadas. Indígenas, quilombolas, comunidades ribeirinhas, moradores de periferias urbanas e trabalhadores informais vivenciam impactos mais severos porque já estavam expostos a condições precárias de moradia, infraestrutura insuficiente e ausência de políticas públicas estruturantes. O desastre, nesse sentido, é socialmente construído. Ele resulta da articulação entre ameaça natural e vulnerabilidade social pré-existente (Mattedi; Butzke, 2001; Valencio, 2014). O que transforma um evento extremo em tragédia é a desigualdade.

  Em 2026, enchentes em áreas urbanas densamente ocupadas, secas prolongadas em regiões agrícolas fragilizadas e incêndios em territórios marcados por conflitos fundiários evidenciam essa lógica. A vulnerabilidade não é circunstancial; ela é produzida historicamente.

  Como já discutido em textos anteriores no Blog do NET.dr, trata-se de compreender o risco como expressão de relações sociais assimétricas e não como fatalidade natural. Os territórios mais vulnerabilizados - periferias urbanas, comunidades tradicionais, regiões com infraestrutura precária - seguem concentrando os danos mais severos. Não é o evento natural que define a tragédia, mas as condições sociais que antecedem o impacto. Como mencionado anteriormente, o desastre é socialmente construído. Ele revela desigualdades históricas, ausência de políticas públicas estruturantes e modelos de desenvolvimento que priorizam o lucro em detrimento da vida.

  Os acontecimentos de 2026 reforçam essa leitura. Incêndios ampliados por secas prolongadas, tempestades potencializadas por oceanos mais quentes, enchentes agravadas por ocupações desordenadas e impermeabilização do solo. A ciência aponta a influência decisiva das mudanças climáticas antropogênicas, mas os efeitos concretos se manifestam como crise social: deslocamentos forçados, perda de renda, insegurança alimentar, sofrimento psíquico. Há, portanto, uma dimensão ética incontornável.

 

3 A dimensão ética da gestão: 2026 como ponto de inflexão

  A recorrência dos desastres coloca uma questão central: qual é o papel do Estado e das políticas públicas diante desse cenário? A resposta emergencial isolada mostra-se insuficiente. A gestão fragmentada, centrada apenas na resposta pós-impacto, não enfrenta as causas estruturais da vulnerabilidade.

A literatura aponta para a consolidação da Gestão Integral de Risco de Desastres (GIRD), articulando prevenção, mitigação, preparação, resposta e reconstrução com base territorial (Lavell, 2012; UN, 2015; Mattedi et al, 2024; Rossi; Mattedi, 2025). Não se trata apenas de aperfeiçoamento técnico, mas de reorientação estrutural da ação pública. Planejamento urbano responsável, políticas ambientais consistentes, redução das desigualdades e participação social efetiva devem compor um mesmo horizonte estratégico.

Mais do que técnica, essa é uma escolha ética. Proteger a vida exige integração entre ciência, poder público e comunidades locais. Exige planejamento urbano responsável, políticas ambientais consistentes e participação social efetiva. Conforme Valencio (2010), a ordem social molda a forma como os desastres são vividos e enfrentados. Ignorar essa dimensão é perpetuar injustiças.

  Os registros recentes indicam que a intensificação dos eventos extremos não é episódica. O que está em curso é uma reconfiguração do padrão climático global, com efeitos sociais profundos. Diante disso, 2026 pode se tornar apenas mais um marco de agravamento ou pode representar um ponto de inflexão. A diferença dependerá da capacidade de transformar constatação científica em ação política estruturante. Se os desastres são socialmente produzidos, também podem ser socialmente prevenidos.

  A história demonstra que sociedades que investem em planejamento territorial, fortalecimento institucional e redução de vulnerabilidades conseguem mitigar impactos. Aquelas que mantêm modelos de desenvolvimento predatórios e gestão emergencial permanente ampliam seus próprios riscos. O tempo da exceção passou. Vivemos o tempo da responsabilidade pública.

  A proteção da vida deve orientar decisões econômicas, urbanísticas e ambientais. Se os desastres deixaram de ser eventos raros e passaram a constituir um cenário permanente, é necessário rever profundamente os modos de gestão. A resposta emergencial isolada não basta. A lógica reativa mostra-se insuficiente diante da recorrência e da complexidade dos impactos. Segundo Rossi e Mattedi (2015), o horizonte precisa ser a prevenção estruturante, a redução de vulnerabilidades e a integração entre políticas públicas - aquilo que se convencionou denominar Gestão Integral de Risco de Desastres.

 

Considerações finais

  O ano de 2026 começa como um alerta. Não apenas sobre o clima, mas sobre o modelo de sociedade que seguimos reproduzindo. A recorrência dos desastres evidencia que o problema não é apenas meteorológico ou geofísico; é político, econômico e social. A crise ambiental escancara as contradições do capital, aprofunda desigualdades e desafia as instituições. O que está em disputa não é somente a infraestrutura das cidades, mas a própria capacidade de proteger a vida.

  Se aprendermos com a história recente - das grandes enchentes às secas prolongadas, dos ciclones às ondas de calor - poderemos transformar o padrão de repetição em ponto de inflexão. Caso contrário, 2026 será lembrado apenas como mais um capítulo de uma crise anunciada.

 A crise climática contemporânea evidencia que a questão ambiental é inseparável da questão social. Eventos extremos tornam visíveis desigualdades que sempre estiveram presentes, mas que se aprofundam sob condições de instabilidade climática. Os acontecimentos de 2026 reforçam uma advertência já anunciada: não se trata apenas de fenômenos naturais intensificados, mas de um modelo de desenvolvimento que produz vulnerabilidade. Proteger a vida, reduzir desigualdades e integrar políticas públicas não é opção ideológica - é imperativo histórico. A exceção tornou-se regra. O desafio agora é transformar conhecimento acumulado em responsabilidade prática.

 

Autoria: Dra. Maria Rossi


Referências

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ASSOCIATED PRESS. Storm Leonardo slams Spain and Portugal, leaving1 dead and a girl missing. World News. AP News, 5 de fev. de 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/7074be62614d34d23a4f246acc2ab190 Acesso em: 11 fev. 2026.


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