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EFEITOS EMERGENTES DA COVID-19 NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL

Dr M. MATTEDI

Universidade Regional de Blumenau

mam@furb.br


Em muitas regiões grande parte das atividades econômicas foram suspensas. Na melhor das hipóteses permanecerão assim por todo este trimestre. Mesmo com a perspectiva de uma retomada da atividade durante a segunda metade do ano, a economia mundial aponta inevitavelmente, para uma recessão este ano. Porém, o impacto da crise da COVID-19 também é diferenciado nos países, com algumas regiões e cidades sendo mais atingidas do que outras. Neste sentido, a escala da crise está intimamente ligada a intensidade da onda de contágio e à maneira como as medidas de contenção foram ativadas e desativadas em cada região.


Afinal, a COVID-19 afetou diretamente o padrão predominante de desenvolvimento socioeconômico. A submissão de milhões de pessoas ao Distanciamento Social acabou isolando cidades e regiões inteiras. O isolamento paralisou a atividade econômica, interrompendo muitas cadeias de consumo e produção. Esta interrupção vem impactando diretamente o Desenvolvimento Regional, não somente em termos negativos como emprego e a arrecadação, mas também em termos positivos como meio ambiente e mobilidade urbana. Neste sentido, a COVID-19 representa, ao mesmo tempo, uma ameaça e uma oportunidade para o desenvolvimento de muitas regiões.


Para entender este processo precisamos primeiro considerar os custos da COVID-19. Os custos da COVID-19 são muitos difíceis de serem estimados. Afinal, vidas, medos, angústias e todos os sofrimentos não podem ser razoavelmente quantificados. É que não existe equivalência de mercado que possa servir de base para comparação monetária para o sofrimento. Porém, as experiências aprendidas da economia dos desastres oferecem alguns insights que podem nos auxiliar a avançar algumas hipóteses. Neste sentido, partindo apenas das perdas tangíveis é possível diferenciar dois conjuntos de impactos: a) Custos Diretos; b) Custos Indiretos.


a) Custos Diretos: Os custos diretos dizem respeito aos impactos de curto prazo. Neste sentido, é possível diferenciar dois conjuntos principais: 1) Saúde: cuidados médicos vinculados à detecção ou tratamento da doença; 2) Produtividade: os dias de licença médica. Neste sentido, envolve a determinação das condições e da duração da hospitalização de uma pessoa infectada. Assim, se o tratamento é curto os custos de hospitalização são baixos. Mas, a COVID-19 pode ser também um gargalo nos serviços de saúde. Afinal, a preocupação dos cidadãos os leva a ir aos serviços de emergência, às vezes desnecessariamente.


b) Custos indiretos: os custos indiretos são mais difíceis de medir. Dizem respeitos aos efeitos emergentes da COVID-19 a médio e longo prazo na dinâmica de desenvolvimento. Estão relacionados, principalmente, as perdas de produtividade, a paralização das atividades produtivas, doenças emergentes, evasão escolar, etc. Ou seja, trata-se assim de saber os efeitos da COVID-19 na renda, na evolução dos salários, na capacidade de redução da pobreza, na melhora das contas públicas. Assim, a COVID-19 afeta a dinâmica do PIB e, consequentemente, toda dinâmica econômica.


Considerando estes fatores pensar os impactos da COVID-19 no Desenvolvimento Regional envolve metodologicamente duas operações principais: a) medir o que foi ou pode ser afetado numa pandemia; b) estimar os efeitos sobre a dinâmica de desenvolvimento regional. Assim, se, por um lado, o impacto econômico direto dos gastos com saúde da COVID-19 tende a ser bastante limitados, principalmente, quando comparados com epidemias como, por exemplo, a AIDS ou malária; já, os custos indiretos, pelo contrário, não somente são desproporcionalmente maiores que outras pandemias e também consideravelmente mais difíceis de serem estimados.

Por isto, os benefícios sanitários da conformidade ao Distanciamento Social a curto prazo, são inversamente proporcionais aos custos socioeconômicos a médio e longo prazo. Assim, a medida em que a contenção se estende a preocupação com a proteção da saúde se encontra com a necessidade de mitigação das consequências econômicas: a curva do contágio vai progressivamente se encontrando com a curva do desemprego. Por isto, as pessoas quando confrontadas com o risco de contaminação são contrárias ao relaxamento do Distanciamento Social; porém, quando consideram os efeitos econômicos a situação parece se inverter.


Para pensarmos os efeitos da COVID-19 precisamos considerar o Princípio de Continuidade. O Princípio de Continuidade estabelece que: as condições pré-impacto (Tempo-1) se transferem para as condições pós-impacto (Tempo-2). Neste sentido, quando pensamos o impacto da COVID-19 no Desenvolvimento Regional precisamos considerar o estado no Tempo-1 de quatro fatores principais: a) o crescimento econômico (PIB); b) o nível de emprego; c) a inflação; d) a taxa de juros. A consideração deste processo nos permite projetar quatro cenários principais: a) Cenário Pessimista; b) Cenário Otimista; c) Cenário catastrofista; d) Cenário Ufanista.


1 Cenário Pessimista: efeitos negativos temporários. Assinala que uma queda temporária e depois sugere a retomada da trajetória do PIB observada em T-1. Ou seja, não se verifica nenhuma mudança profunda de longo prazo. Neste sentido, a COVID-19 paralisa as atividades socioeconômicas, mas este processo se caracteriza por tempo determinado. A variação vai depender muito de cada região e o grau de integração nas cadeias globais de produção. Isto significa que a COVID-19 não altera significativamente o padrão o predominante de desenvolvimento regional.


2 Cenário Otimista: efeitos negativos e positivos temporários. Indica que existem efeitos positivos e negativos operando na COVID-19 no curto prazo, mas convergindo no longo prazo. Como em outras situações de desastres a incapacidade de fornecimento de uma região é substituída por outra. Assim, a COVID-19 representa uma oportunidade de desenvolvimento na medida que nem todos os setores são afetados pela COVID-19. Isto indica que o impacto vai depender da especialização econômica da região. Portanto, o Cenário B inverte as projeções pressupostas no Cenário A.

3 Cenário Catastrofista: efeitos negativos permanentes. Sugere que o impacto deixará a curva de crescimento abaixo da tendência, indicando que a COVID-19 terá efeitos duradouros de longo prazo. A passagem da COVID-19 por algumas regiões tem sido devastador. Isto significa que os impactos não somente são profundos, mas, sobretudo, duradouros. Consequentemente, as diferenças regionais tendem a se acentuar profundamente. Neste sentido de projeção algumas regiões jamais conseguirão retomar o estágio de desenvolvimento anterior.

4 Cenário Ufanista: efeitos econômicos negativos de curto prazo e positivos de longo prazo. Os impactos negativos serão de curto prazo devido a capacidade de aproveitamento das oportunidades de desenvolvimento geradas pela COVID-19. Neste sentido, os efeitos da COVID-19 sobre o padrão de desenvolvimento regional são positivos porque possibilitariam um impulso. Este processo pode ser o efeito da imunidade governamental. Isto significa que algumas regiões vão acabar crescendo e se desenvolvendo com a passagem da COVID-19.


Considerando estes cenários temos pelos menos duas certezas: a primeira que haverá um solavanco no ritmo de crescimento; a segunda que após este solavanco a economia voltará a crescer. Neste sentido, a questão é saber:


a) quanto e com que rapidez a curva vai descer?

b) quando vai subir e em que ritmo?

c) se permanecerá acima ou abaixo da tendência?


Este processo depende muito da capacidade de amortecimento e alavancagem da crise efetuados pelo Estado. Isto acontece porque todas as unidades de governo acabam estando direta ou indiretamente envolvidas na gestão. Afinal, as responsabilidades ​das medidas de contenção, como, por exemplo, assistência médica, serviços sociais, desenvolvimento econômico e investimento público são compartilhadas. Em sistemas altamente centralizados pode haver um incentivo limitado à cooperação inter-regional; assim, a existência de mecanismos eficazes de coordenação e governança é essencial para determinação dos impactos do desenvolvimento regional.


Além disso, existe um risco de intensificação do processo de concentração econômica. A queda econômica afetará profundamente as empresas menores e deixará os grandes conglomerados coorporativos em uma posição ainda mais forte. O aumento da concentração de alguns setores econômicos já era um problema antes da COVID-19, será acelerado porque as grandes empresas aumentarão seus subsídios. Portanto, embora todos sejam afetados pela passagem da COVID-19, esses efeitos não serão os mesmos de um lugar para outro. Desta forma, os impactos vão acabar fortalecendo certas regiões em detrimento de outras.


Assim, embora num primeiro momento a impressão seja de que a COVID-19 fechou a economia em todas as regiões da mesma forma, existe uma variação muito grande. Isto indica que o impacto econômico da crise também difere entre as regiões, dependendo de sua exposição ​​e as especializações setoriais. Neste sentido, as regiões que são fortemente dependentes da indústria do turismo e de cadeias globais de produção serão mais afetadas do que outras regiões. E, desta forma, dentro das regiões as áreas metropolitanas porque, geralmente, apresentam um risco relativamente maior de interrupção das atividades econômicas por suportarem as atividades de consumo.


Existe, portanto, uma variação muito grande não somete entre as regiões, mas também nas próprias regiões. Por isto, evidentemente, estes cenários não são mutuamente excludentes espacialmente. As combinações possíveis são grandes e possuem expressões territoriais muito variadas. Afinal, ao longo da passagem da COVID-19 podemos ter uma região em que se manifesta o Cenário C, enquanto outra região prisioneira de um Cenário D, e assim por diante. Neste sentido, esta variação coloca a questão da Multidimensionalidade, da Multidirecionalidade e da Multisetorialidade do desenvolvimento regional.


a) Multidimensionalidade: evoca a condição em que o Desenvolvimento Regional não pode ser reduzido apenas aos fatores econômicos, mas implica também outras dimensões, como, por exemplo, a social, ambiental, política, cultural;


b) Multidirecionalidade: a multidirecionalidade faz referência a assimetria do processo de mudança entre as diversas dimensões. Assim, o que pode representar um fator negativo do ponto de vista econômico pode ser positivo do ponto de vista ambiental;


c) Multisetorialidade: refere-se a questão dos significados que os atores atribuem ao processo de desenvolvimento. Desta forma, a crise da COVID-19 tem significações diversas em função da posição do indivíduo no processo de desenvolvimento.


Verifica-se, assim, que a crise global da COVID-19 tem uma forte dimensão territorial. Neste sentido, a passagem da COVID-19 cria uma regionalização territorial. Afinal, o impacto da crise tem sido altamente assimétrico regional e localmente. Isto acontece porque nem todas as regiões são afetadas da mesma forma. Em termos econômicos isto significa que a passagem da COVID-19 será diferente entre as regiões, dependendo de sua exposição às cadeias globais de valor e dos tipos de especialização, como o turismo. No geral, pode-se dizer, que as regiões turísticas e as regiões metropolitanas parecem estar em maior risco de interrupção do emprego do que outras regiões.


Portanto, a partir da relação entre Custos Diretos e os Custos Indiretos percebe-se que a passagem da COVID-19 apresenta uma variação transescalar e intertemporal muito grande. Em termos espaciais isto significa que existem regiões mais vulneráveis que outras; já em termos temporais algumas regiões serão afetadas antes que as outras. Entre as principais variações destacam-se aquelas impulsionadas pelo enorme setor de lazer e turismo. Porém, se desencadear a uma recessão grandes setores como a construção, manufatura, varejo, educação, alimentar serão afetados independentemente da posição espacial e temporal. Os Custos Diretos são altos, mas os Custos Indiretos são maiores.

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