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O novo urbanismo e a COVID-19

Giovanni Hardt Auzani

Mestrando em Desenvolvimento Regional - FURB

email: giovanni.ha@gmail.com


O “novo urbanismo” é o principal modelo de urbanismo defendido pelos urbanistas contemporâneos. Este modelo visa superar os efeitos emergentes do urbanismo modernista. Sua principal estratégia é o adensamento populacional dos centros urbanos. O desenvolvimento desse adensamento urbano depende de uma arquitetura residencial cada vez mais compacta. No atual momento de pandemia global, o distanciamento social é a principal forma de prevenção ao COVID-19. Dessa forma, pela primeira vez os espaços urbanos propostos pelo novo urbanismo enfrentam os efeitos da relação de suas diretrizes projetuais com uma crise epidemiológica.


O sanitarismo surge no final do século XIX, quando após diversas pandemias, os médicos higienistas passam a defender que o meio urbano poderia influenciar na degeneração urbana e da saúde geral dos cidadãos. Espacialmente, havia uma preocupação em projetar grandes espaços abertos nas cidades, com eixos visuais e grande circulação de ar. Além das práticas sanitárias modificadoras do espaço urbano, entre os higienistas havia a preocupação em implantar novas técnicas de sociabilidade. Seu discurso se baseava “no axioma de que um bom meio, forma um bom cidadão”. O urbanismo moderno foi muito influenciado pelo sanitarismo e radicalizou os conceitos de divisão de funções das cidades, gerando um processo de suburbanização.


O modelo americano de cidade moderna baseada na cultura automobilística desenvolveu uma expansão urbana. A setorização das cidades a partir da divisão do trabalho produz vazios urbanos durante os contraturnos. Estes processos são garantidos pelas normas de regulamentação do uso do solo como o zoneamento e os índices urbanísticos. A partir da perspectiva da sustentabilidade, a cidade moderna requer extensas redes de infraestrutura urbana, gerando grandes deslocamentos da população. A partir do ponto de vista urbanístico, a falta de vitalidade decorrente da divisão de usos e na dicotomia entre público x privado acarreta insegurança e degradação do espaço urbano.


O urbanismo pós-moderno e o novo urbanismo visam preencher os vazios urbanos construídos pelo modernismo. Reconhecem a cidade como o centro da vida e das relações sociais. Dessa forma, para haver vitalidade nas cidades, o novo urbanismo defende o adensamento populacional, a diversidade de usos, e a qualidade do espaço urbano. Os locais das atividades do cotidiano não devem exceder 10 km de distância do raio da sua residência. A circulação passa a ser feita em sua maior parte a pé ou por meio de transportes públicos. Com a especulação imobiliária as residências nesses espaços passam a ser cada vez menores o adensamento desses espaços passa a tornar-se impositivo.


“CAPITALISM IS THE VIRUS” Bacteria collected on site + Polaroid - Chinatown – 2020

@drielycarter


A transmissibilidade do COVID-19 está diretamente ligada a densidade populacional, conforme demonstrado por Mattedi. Sendo assim, se o novo urbanismo estimula o adensamento e as interações sociais espontâneas geradas pela densidade populacional esses conceitos entram em conflito direto com o distanciamento social. Sair na rua enquanto o outro está potencialmente carregando um vírus letal pode afastar qualquer estímulo de iniciar uma interação social. A vida nos subúrbios ou nas áreas rurais permite esse afastamento de forma muito mais natural. Além disso, os bairros desenvolvidos seguindo os conceitos do novo urbanismo dependem de uma infraestrutura coletiva que se paralisou diante a pandemia.


O novo urbanismo surgiu nos anos 90 em um momento onde o problema das grandes pandemias parecia ter sido superado. Nessas últimas três décadas até o momento, a maior pandemia enfrentada havia sido a do H1N1. Com número de mortes muito mais expressivos, a atual pandemia do COVID-19 gera uma ruptura que nos obriga a reavaliar as práticas de urbanismo e arquitetura contemporânea. O novo urbanismo não foi idealizado para permitir o distanciamento social nas cidades. Tão pouco as residências contemporâneas são projetadas para abrigar uma família em período integral durante meses, ou a oferecer meios de prevenção ao vírus.

Dessa forma, a COVID-19 estabelece uma ruptura das relações entre o público e privado. Nesse sentido, já existem projetos sendo desenvolvidos de forma conceitual que buscam responder a essas questões para permitir o reestabelecimento dessas relações. No âmbito privado, a mudança mais imediata percebida é na organização da área de trabalho, criando um cenário para as recorrentes videoconferências. No sentido da higienização o escritório Y Arquitetos desenvolveu um projeto residencial onde há uma entrada adjacente a entrada social da casa pelo banheiro. Esse projeto desenvolvido para uma médica, permite uma transição entre o mundo externo-interno e serve de referência para futuros projetos pós-COVID-19.


No setor público, as prefeituras de diversas cidades tiveram que buscar uma solução para fazer a vacinação contra o H1N1 e os testes do COVID-19 sem gerar aglomerações. Uma das soluções amplamente implantadas tem sido com o sistema drive-thru. Nesse sistema, uma equipe médica fica em um quiosque ao ar-livre e aplica a vacina ou coletam o teste dos pacientes que param o carro ao lado do quiosque. Entretanto, esse sistema deve ser oferecido de forma complementar aos demais, senão excluirá uma parcela da população que não tem acesso a um automóvel. As propostas citadas podem parecer pequenas em relação a dimensão que a pandemia vem tomando. Porém demonstram que há arquitetos atentos às mudanças causadas pela COVID-19.


O meio urbano foi o primeiro a refletir os efeitos da quarentena, com o esvaziamento das ruas e o fechamento de lojas assim como a diminuição da poluição do ar e rios. Entretanto as mudanças no meio urbano dependem de mais tempo para se consolidarem. Essas mudanças são também sociais e econômicas. Muitas pessoas estão aprendendo a trabalhar remotamente. Outras, aproveitaram esse período para se isolar em áreas rurais, distantes dos grandes adensamentos urbanos. Essa transferência do ambiente de trabalho para um ambiente virtual e a possibilidade de morar distante dos centros urbanos já foi discutida por Toffler nos anos 80. Seria natural se esse movimento acontecesse a partir de um momento de ruptura histórica.


A COVID-19 é uma pandemia em curso que apresentou o primeiro grande obstáculo aos bairros e cidades desenvolvidos a partir do novo urbanismo. As dinâmicas de trabalho desenvolvidas para driblar a quarentena difundiram o uso de ferramentas tecnológicas já existentes. Dessa forma os bairros centrais adensados ficam sujeitos a uma possível nova suburbanização, resultado de uma aversão adensamento excessivo e da difusão do trabalho remoto. Os urbanistas do novo urbanismo e representantes da administração pública das cidades devem apresentar propostas referentes a prevenção a pandemias. Visto que a COVID-19, mesmo após superada, deixará um alerta quanto a possibilidade de novas pandemias.

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