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A SÍNDROME DO DEDO NERVOSO (04/06/2019)

Dr M. Mattedi

Universidade Regional de Blumenau

mam@furb.br

A Síndrome do Dedo Nervoso é diz respeito aos nossos hábitos on-line nas mídias sociais. Mais precisamente, a ânsia de compartilhar informações sem checagem. Compartilhamento aqui não diz respeito somente a replicação ativa de informações, mas também passiva através de likes. Está relacionada, principalmente, a dois processos: a) Econômico: o baixo custo financeiro do compartilhamento; b) Político: as implicações individuais são muito baixas. O efeito combinado acaba levantamento muita poeira cognitiva e provocando um Surto Infodêmico. O Surto Infodêmico dificulta a diferenciação entre Informação Crível e Informação Tóxica.


Por isto, atualmente as pessoas se tornaram insensíveis a informação sobre a COVID-19. Neste sentido, podemos identificar quatro fases principais que acompanham as Fases do Distanciamento Social. Entender esta relação é muito importante porque acabou tornando o Distanciamento Social insuportável. Afinal, foi ativado muito precocemente, porém não foi rígido o suficiente para controlar a pandemia. Assim, considerando as Fases do Distanciamento Social é possível diferenciar quatro padrões de mediação com a informação: a) Inflação Informacional; b) Acomodação Informacional; c) Fadiga Informacional; d) Saturação Informacional.


a) Inflação Informacional: troca emocional e distribuída de informações. Esta fase se caracterizou por muita incerteza sobre o processo de contaminação e também sobre quais ações tomar. Por isto, as pessoas tentam se unir para saber o que fazer. Afinal, o custo de não possuir informação é muito alto. Assim, verifica-se, por um lado, uma enorme demanda pública por informações; e, por outro, pela explosão do uso das mídias sociais (Twitter, Whatsapp, Facebook). Neste sentido, a intensa busca e troca de informações potencializa os efeitos perversos do Surto Infodêmico.


b) Acomodação Informacional: troca sistemática e centralizada de informações. Trata-se do momento que as pessoas aprenderam a conviver com a COVID-19 e internalizaram os protocolos de segurança. Neste sentido, a troca galopante de informações é substituída por um processo de customização (filtragem) da informação efetuado pelas instituições oficiais. A quantidade é substituída pela qualidade da informação. As pessoas passam a buscar informações confiáveis e de fontes sólidas. Porém, é preciso muito conhecimento prévio para entender as atualizações das informações.


c) Fadiga Informacional: troca de informações é mediada ideologicamente e se torna tóxica. O compartilhamento de informações solidárias é substituída pela disputa de narrativas da COVID-19. A COVID-19 é traduzida ideologicamente e as informações vão se tornando mais polêmicas. Neste sentido, as informações passam a ser construídas com a intenção deliberada de persuadir e impressionar os leitores. BOTs são postos em operação para tracionar o processo de circulação das informações. E as pessoas acabam acessando um bufê de informações enganosas e potencialmente perigosas.


Saturação Informacional: a troca de informação cessa devido ao anestesiamento infodêmico. Isto acontece porque o aumento da politização do debate científica é acompanhado pela diminuição do interesse pelas informações. Aumentam as figuras estatísticas, dados, gráficos e outras formas de apresentação, porém nada mais sensibiliza as pessoas. As estatísticas de morte e contágio sobem e descem e ninguém mais se importa. Afinal, as pessoas começam a evitar as informações. Por isto, inversamente as informações se tornam mais e mais agressivas para tentar chamar atenção dos internautas.



Isto indica que passamos de uma situação Falta de Informação, para uma situação Excesso de Informação. Historicamente as pessoas sempre lutaram para ter acesso às informações; porém, agora, as pessoas resistem porque descobriram que a informação é potencialmente nociva. Afinal, as pessoas podem ter acesso a informação numa escala muito maior do antes; além disso, podem produzir e divulgar seus próprios conteúdos. Porém, nem todas as pessoas estão preparadas para processar tanta informação. A sobrecarga de informação é preocupante porque na busca de informações cada vez mais atualizadas acabamos consumindo desinformação.


E, portanto, o abuso on-line continua intenso na poeira cognitiva gerada pela Síndrome do Dedo Nervoso. Por exemplo, curandeiros on-line vendem suplementos milagrosos; agentes da desinformação promovem teorias da conspiração; trolls potencializam a confusão; extremistas aproveitam para promover as agendas de ódio; informações falsas são usadas para gerar engajamento na economia do clic; hackers exploram o medo e a incerteza para instalar malware; e, sobretudo, milhões de pessoas potencializando Informações Tóxicas a partir de uma tentativa bem-intencionada de ajudar seus amigos, familiares e seguidores on-line.


Por isto, a desinformação cresce na lama do medo e da incerteza. A lama é produzida a partir da poeira cognitiva levantada pela plataformas on-line de informação. Por um lado, as plataformas de informação on-line são altamente personalizadas e politizadas; por outro, o ritmo padrão da mídia de atualizações constantes e fragmentadas não é adequado para entender um evento complexos como a COVID-19. O efeito combinado deste processo é que acabamos governados por algoritmos que recompensam as informações extremas e geram ondas de abuso on-line. Este processo acaba desencadeando o processo de sobrecarga de informação.


Neste sentido, existem dois caminhos para conter o efeito paradoxal da informação. Por um lado, as ações adotadas pelas plataformas tecnológicas fornecedoras de informação: a) promover boas informações; b) rebaixar informações ruins; c) impedir que as informações erradas apareçam em primeiro lugar. Por outro, os usuários por meio da técnica PIER (SIFT em inglês) para tratamento das informações: a) Parar; b) Investigar a fonte; c) Encontrar melhor cobertura; d) Rastrear reivindicações. Dito de outra forma, não basta a mídia mudar, os consumidores também precisam mudar. Ou seja, examinar novas informações antes de compartilhá-las.


A única forma de conter a variação entre os extremos (Surto Informacional/Saturação Informacional) é praticar a higiene da informação. O Surto Infodêmico explicitou os defeitos em nossa infraestrutura de informações e o impacto potencial de nossos hábitos on-line. Assim, para conter a Síndrome do Dedo Nervoso é preciso praticar uma higiene na informação: 1) Filtre suas fontes de informação; 2) Identificar os seus padrões de desinformação. Por isto, é preciso saber reconhecer os efeitos das nossas decisões numa postagem infectada. Afinal, nossos hábitos nas mídias sociais têm efeitos dramáticos na propagação da informação.

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