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  • Maiko Rafael Spiess

CLOROQUINA E O PENSAMENTO MÁGICO

Prof. Dr. Maiko Rafael Spiess

mspiess@furb.br


Ao longo de sua carreira política, Jair Messias Bolsonaro demonstrou pouca proximidade aos temas e políticas públicas relacionadas à Ciência, Tecnologia e Inovação. Durante seus 26 anos como congressista, propôs 171 projetos de lei. A maioria deles se concentrava em interesses dos militares (portanto, corporativistas) e de segurança pública. Em seu histórico como legislador também proliferam irrelevâncias como a proposta de inclusão do ex-deputado Enéas Ferreira Carneiro no Livro dos Heróis da Pátria e da obrigatoriedade de que os civis tenham de colocar a mão sobre o peito quando da execução do hino nacional. (veja aqui e aqui).


Apenas dois de seus projetos foram aprovados. Curiosamente, ambos tocam de alguma forma no tema da Ciência, Tecnologia ou Inovação. Um deles trata da isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para bens de informática (PL 2514/1996). O outro, muito tempo depois, tratou do uso da fosfoetanolamina sintética - a “pílula do câncer” (PL 4510/2016). Embora o projeto tenha sido apensado a outros semelhantes e assinado por outros 25 parlamentares, ficou vinculado à imagem de Bolsonaro dado seu envolvimento ativo na questão.


De fato, na proposição sobre a fosfoetanolamina havia pouco conhecimento científico e muito populismo. Desde o princípio, a eficácia da substância para o tratamento de neoplasias malignas foi questionada pela comunidade científica organizada. Eventualmente, os ensaios clínicos da substância foram interrompidos por questões éticas e pela ineficácia do tratamento: em um dos estudos, 58 de 59 pacientes com câncer que haviam recebido regularmente a fosfoetanolamina não apresentaram qualquer resposta ao tratamento. Em resumo, a discussão sobre o medicamento tinha uma baixa cientificidade.


Ocorre que a mesma linha de raciocínio se repete agora, durante a pandemia de COVID-19. Para muitos, a cloroquina é a nova fosfoetanolamina. A cloroquina e a hidroxicloroquina (uma formulação diferente, mas com a mesma substância básica) são originalmente utilizadas para o tratamento de malária e condições autoimunes (como artrite e lúpus). Ocorre que testes recentemente divulgados sobre o uso da cloroquina em pacientes com COVID-19 iniciaram um surto infodêmico sobre o tema, com aumento de sua visibilidade e expectativas sobre sua eficácia.


No centro deste surto estão figuras públicas como Donald Trump e Jair Bolsonaro, importantes vetores da transmissão de rumores, imprecisões e promessas vazias sobre a cloroquina. No caso brasileiro, ao analisarmos a dinâmica das buscas realizadas por brasileiros no Google em um período recente, podemos perceber a relação entre a campanha pessoal de Bolsonaro a respeito da substância e um aumento no interesse geral da população sobre o tema, conforme o gráfico abaixo. Para cada fala de Bolsonaro sobre o remédio, se seguiram a cobertura da mídia e o inevitável aumento das buscas sobre a substância.


Declarações de Bolsonaro sobre a cloroquina

e a dinâmica de buscas no Google

Elaboração própria, baseado em:

Google Trends, UOL Economia, Exame [a] [b], Olhar Digital e Twitter.


Conforme crescem as ressalvas sobre o medicamento, parece se repetir em certos círculos a mesma postura anteriormente observada com o caso da “pílula do câncer”: um otimismo que beira o pensamento mágico. É como se a cloroquina devesse funcionar porque se acredita que ela precise funcionar. Dessa forma, são ignoradas as evidências científicas, os procedimentos formais e burocráticos necessários para a aprovação de medicamentos e os possíveis efeitos negativos da substância. Infelizmente, os testes clínicos possuem um ritmo diferente daquele que está sendo ditado pela política e pela esperança das pessoas.


Cabe ainda lembrar que corremos o risco de cair em mais uma busca fantástica por uma cura milagrosa. É que um medicamento misterioso anunciado pelo Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, surge como a mais nova promessa no combate ao coronavírus. Aparentemente, pouco importa que especialistas afirmem que os testes in vitro mencionados pelo Ministro sejam, do ponto de vista científico, evidências preliminares que necessitam de estudos mais aprofundados. Seja por ingenuidade (pensamento fantástico) ou por cálculo político, mais um hiperbólico discurso de esperança é formulado pelos gestores no nível federal.


Por fim, é importante lembrar que não se trata de condenar a busca pela cura ou formas de atenuar os sintomas da COVID-19. Na verdade, trata-se de dimensionar corretamente a eficácia e os possíveis efeitos colaterais de qualquer solução que venha a ser proposta. Temos em nosso país uma educação de baixa qualidade e, portanto, uma formação insuficiente sobre as minúcias científicas necessárias para compreender virologia, epidemiologia ou farmacologia. Esse déficit de conhecimento aliado à politização da pandemia pode potencializar as mortes e danos. É preciso mais responsabilidade com esse assunto tão sério.


Todos queremos que a pandemia passe e que a vida volte ao normal. No entanto, isso não irá ocorrer apenas por efeito de nosso pensamento ou desejo. A superação da emergência passa pelo debate crítico, a avaliação cientificamente embasada e as decisões por meio de processos democráticos. Em resumo, o pensamento complexo no lugar da simplicidade e credulidade do pensamento mágico; o debate de alto nível ao invés da polarização e histeria das “bolhas” de redes sociais. Do tema da cloroquina ao isolamento social, necessitamos nos voltar mais à Ciência do que às nossas crenças.


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